Se no passado o papel do geógrafo do rei era reconhecido como muito importante para contribuir na definição das estratégias militares, hoje o saber pensar e compreender o espaço terrestre continua sendo fundamental para as ações de grande porte e a organização do espaço urbano. Muitas vezes relegada a segundo plano – e até considerada uma disciplina maçante na escola regular -, a Geografia é uma ferramenta que ajuda a entender melhor o mundo e seus conflitos, e também a situação local na qual se encontra cada um de nós, principalmente pelo conhecimento dos mapas.
Dentro desse contexto, desde o ano passado um grupo de alunos do curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) estão realizando um trabalho de alfabetização cartográfica. Por meio de oficinas que utilizam uma metodologia mais criativa e instigante, ensinam os alunos do sétimo ao nono ano do ensino fundamental 2 a lerem e interpretarem os mapas.
O trabalho está sendo desenvolvido dentro do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) do curso de Geografia e acontece em três escolas estaduais de Londrina: Maria José Aguilera, Tsuro Oguido e Professora Margarida de Barros Lisboa. Quinzenalmente os alunos realizam as atividades nas escolas com o auxílio do professor regente de Geografia de cada uma das escolas atendidas. Oportunidade para os alunos de graduação terem uma vivência prática da sala de aula e desenvolverem estratégias pedagógicas motivadoras e próximas à realidade de cada instituição.
No início de julho, uma série de oficinas e mostras de trabalhos marcaram parte do que está sendo feito com os alunos nas três escolas participantes. O evento deveria envolver 2 mil alunos. Na Escola Estadual Margarida de Barros Lisboa a agitação era geral durante a apresentação dos trabalhos. Em exposição, diversos mapas em três dimensões confeccionados pelos alunos, com destaque para a observação das escalas do relevo, das curvas de nível do solo; maquetes feitas com material reciclável do estudo espacial em escala das dimensões da sala de aula; desenhos das dimensões do corpo humano; mapas desenhados pelos alunos sobre as vias de acesso à escola, entre outros trabalhos.
"No caso da maquete da sala de aula, eles puderam trabalhar a questão da 'visão baixa', quando observam apenas o desenho, e a 'visão oblíqua', quando observam de cima, dentro da perspectiva da escala de redução trabalhada", explica a professora Jany Marques, responsável pela disciplina de Geografia da escola e pela orientação de campo dos estagiários. "Com a estrutura humana do projeto, temos condições de aprofundar os conteúdos e todos saem ganhando", comenta a professora, que participa de reuniões mensais com os estagiários para a discussão de propostas pedagógicas e troca de experiências.
Durante a mostra, uma gincana sobre conhecimentos geográficos – como nomes de capitais, estados e referências cartográficas - foi realizada no ginásio da escola. No pátio, uma dinâmica que lembrava a brincadeira de cabra-cega serviu para trabalhar a noção de lateralidade e capacidade de se orientar. Enquanto um aluno estava de olhos vendados, outro o orientava com informações de pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste) e lateralidade (vire à esquerda, à direita, para frente...), para chegar a um ponto específico definido na atividade lúdica. Algo aparentemente simples que demonstrou que ainda há muita dúvida sobre o assunto. No evento, também foi apresentada uma pequena peça de comédia que conta a história de um entregador de água que se perde ao andar de moto por não entender um mapa.
"Esse projeto é importante porque a universidade vai até à escola e desencadeia nos alunos a vontade de fazer licenciatura e se tornar um professor de geografia", comenta Nilson Cesar Fraga, supervisor do projeto no Colégio Estadual Margarida de Barros Lisboa. "Mesmo com as tecnologias do GPS, do Google Map, é importante desenvolver nas crianças o raciocínio lógico cartográfico", acrescenta Fraga.
No segundo ano de Geografia, Ester Paula Leite Vacario, 37 anos, está gostando de participar do projeto. "Enquanto aluna, vivencio o dia a dia do professor e também posso trazer novidades para a escola, pois muitas vezes o professor está sobrecarregado pela rotina. É legal poder interferir de forma positiva na vida da escola", afirma Ester.
"Com a desvalorização do professor, tanto em relação ao prestígio quanto ao salário, cada vez mais torna-se difícil atrair jovens capacitados para a profissão e acreditamos que o projeto tem condições de problematizar as diferentes situações de ensino e buscar soluções para os desafios encontrados", avalia Margarida de Cássia Campos, coordenadora geral do projeto.
O trabalho feito em Londrina já rendeu um artigo científico que foi apresentado no Encontro de Geógrafos da América Latina, no Peru, e em setembro será debatido no Congresso Internacional de Geografia, em João Pessoa (PB).
O Pibid de Geografia congrega 21 estudantes da UEL, que desde agosto de 2012 desenvolvem ações nas escolas públicas. O Pibid é uma iniciativa do Ministério da Educação visando o aperfeiçoamento e a valorização da formação de professores para a educação básica. O programa concede bolsas a alunos de licenciatura participantes de projetos de iniciação à docência desenvolvidos por instituições de educação superior em parceria com escolas de educação básica da rede pública de ensino.

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