Para quem começou a carreira como ator amador, fazendo uma ponta na histórica montagem de ‘‘Hamlet’’ (1948), protagonizada por Sérgio Cardoso, é natural que o encenador paulistano José Alves Antunes Filho, 70, apelidado Zequinha na juventude, tenha dedicado boa parte dos 53 anos de carreira à formação de atores, praticamente uma obsessão.
Antunes sempre resistiu à concepção de um método pelo método, mas a aura de guru, de mestre, de pegadogo do ofício do intérprete, tampouco lhe escapou.
Como o colega japonês Tadashi Suzuki, diretor da Companhia de Toga (SCOT), que nos anos 60 criou o Método Suzuki de Interpretação, no qual conjuga a ‘‘energia animal’’ do ser humano como força de expressão e o teatro com viés social e espritiual, Antunes teve suas técnicas de treinamento sistematizadas nos últimos 20 anos à frente do Centro de Pesquisa Teatral (CPT/Sesc SP).
É a partir dessa perspectiva que o pesquisador Sebastião Milaré prepara ‘‘Hierofonia - O Teatro Segundo Antunes Filho’’ (escreve o segundo capítulo, mas ainda não tem editora).
Trata-se do segundo livro de sua autoria sobre o encenador. O primeiro, ‘‘Antunes Filho e a Dimensão Utópica’’ (ed. Perspectiva, 1994), pincelou a biografia e pontuou a carreira desde 1948, passando pelo ‘‘carregador de cafezinho’’ dos diretores do Teatro Brasileiro de Comédia - os italianos Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi, o polonês Ziembinski etc -, o teleteatro e a lendária montagem de ‘‘Macunaíma’’ (1978).
‘‘Hierofonia’’, título que empresta a definição do teólogo romeno Mircea Eliade para o lugar da manifestação do sagrado, será dividido em três partes.
A primeira vai historiar o repertório do CPT, de ‘‘Macunaíma’’ a ‘‘Drácula e Outros Vampiros’’ (1996). ‘‘Na medida que apresento cada peça, vou examinando a introdução do conhecimento no método, a incorporação de elementos da psicologia analítica, da mecânica quântica, do taoísmo, do zen-budismo, da nova física’’, explica Milaré, 55.
Na segunda parte, o autor irá se debruçar sobre a teorização do método. ‘‘Os exercícios como o desequilíbrio, a bolha, o princípio da incerteza e da complementaridade, enfim, eles foram condensados ao longo dos anos, racionalizados até constituírem um método’’, diz o pesquisador.
Milaré dedicará a terceira e última parte à série ‘‘Prêt-à-Porter’’, que começou em 1998, a ‘‘Fragmentos Troianos’’ (1999) e a ‘‘Medéia’’, processos que, na sua concepção, foram desenvolvidos após o ‘‘fechamento’’ do método - o ponto alto de depuração seria ‘‘Paraíso Zona Norte’’ (1989).
‘‘Entre as ferramentas que incorpora, como a retórica, uso persuasivo da linguagem’’ e o paradigma holístico – teoria segundo a qual o homem é um todo indivisível’’ –, Antunes está sempre observando o homem, a busca da superação de suas dificuldades e limitações por meio do conhecimento’’, afirma.
O produtor cultural Ricardo Muniz Fernandes, que também organiza o livro ‘‘PP1, PP2, PP3 e PP4’’, sobre a série de ‘‘não-espetáculos’’ do CPT, diz que o lançamento deve acontecer até setembro, pela editora Senac. A obra reunirá artigos de pensadores e filósofos, além de ensaios fotográficos.

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