Jogos e brincadeiras. Já viu criança desinteressada quando o programa é pura diversão? Muito provavelmente, não. Agora, quando a tarefa é aprender matemática, caretas e preguiça costumam dar o tom nos ânimos dos pequenos estudantes. Mas o que parecia pertencer a mundos diferentes se uniu e o resultado foi entusiasmo e aprendizado com muitos sorrisos.
Matemática.com.prazer, esse é o nome do projeto desenvolvido pelas estudantes do 3º ano de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Patrícia Tofano Soares e Ana Paula Pedroso como parte do estágio curricular obrigatório. O trabalho foi aplicado para alunos da 3 série da Escola Municipal Maria Irene Vicentini, no Jardim San Fernando (Zona Leste de Londrina). Durante 40 dias, Patrícia e Ana Paula foram à escola duas vezes por semana, cada dia levando jogos matemáticos diferentes.
Patrícia conta que foram aplicados 16 jogos, todos eles feitos com material reciclável como jornal, garrafas pet e revistas velhas. ''Quando viemos conversar na escola, a professora falou sobre a dificuldade dos alunos em aprender tabuada, por isso fizemos os jogos para desenvolver esse lado'', detalhou Patrícia. Ana Paula confessou que sempre teve dificuldade com a matemática na escola. ''Fiquei pensando como eu agiria se tivesse aprendido dessa forma. Poderia ter gostado e teria mais facilidade'', observou.
Boliche, dominó, argola, bingo, corrida, culinária, todas essas brincadeiras ganharam ares de matemática e ajudaram os alunos a aprender a tabuada. O boliche, por exemplo, trabalhou a tabuada do 4 e do 5. Cada garrafa tinha uma conta. Os alunos jogavam a bolinha e depois tinham que fazer as contas das garrafas que tinham derrubado e somar os resultados. Todo o trabalho era mental, sem lápis ou papel. ''Tinha uns que contavam nos dedos, os outros queriam ajudar, isso aumentou o interesse deles'', contou Patrícia.
Algumas dúvidas surgiam durante as brincadeiras. Patrícia recordou que quando perguntou quanto era 4x11 uma aluna disse que tabuada só ia até 10. As contas invertidas também geravam dúvidas. As crianças entendiam que a tabuada do 4 era apenas 4x9 e não 9x4. ''O projeto ajudou a 'abrir' a cabeça deles para que entendessem que a tabuada é infinita'', disse Patrícia.
Ana Paula e Patrícia observaram que havia muita agressividade entre os alunos e aproveitaram o projeto para trabalhar esse lado também. ''Buscamos resgatar a feminilidade entre as meninas. Elas se xingavam o tempo todo e brigavam mais que os meninos'', relatou Patrícia.
A auto-estima também pôde ser resgatada. O ato de desenvolver os jogos com sucata mostrou aos alunos que eles também podem construir seus brinquedos. Uma das manhãs, inclusive, foi dedicada para essa atividade. Os alunos construíram seus objetos e também dinheiro de mentirinha. Depois, eles simularam um pequeno comércio onde venderam e compraram o que tinham produzido.
O projeto foi aprovado pela garotada. Dilan Duarte, 8 anos, solicitou: ''gostaria que tivesse sempre''. Ele destacou que as professoras falavam que matemática era uma coisa legal e com as brincadeiras ele até conseguiu pensar na disciplina como algo mais prazeroso. André Luis de Moraes, 12 anos, tinha certa dificuldade com a tabuada e acabou se desenvolvendo mais depois dos jogos. ''Ficou mais fácil'', afirmou.
Débora Pinhatini Ferreira, 9 anos, se entusiasmou com a brincadeira. ''Nossa! Eu não sabia que dava para aprender com jogos'', revelou. Ela contou que entre as atividades o dia ''mais legal'' foi quando eles próprios trabalharam com a sucata. Ela fez um robô e depois, com potinho de margarina, desenvolveu um chinelinho para o brinquedo. Dilan também criou o seu robô. ''O meu tinha chapéu feito com tampa de spray'', detalhou.
A professora da turma, Tatiana Lopes Mendes, também aprovou a idéia. ''Ficou provado que tem que brincar com eles'', resumiu. Ela reafirmou a dificuldade da classe em aprender a matemática e constatou que a melhora foi significativa: ''Eles ficaram mais interessados e o raciocínio ficou mais rápido''.
Tatiana disse que pediu uma cópia do projeto das estagiárias para aplicá-lo no próximo ano. ''As crianças hoje tem coisas diferentes e se você não fizer o conteúdo virar brincadeira não vai conseguir trabalhar em sala'', salientou.

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