Meteoro cidadão
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sábado, 14 de abril de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Na última segunda-feira, cerca de 600 pessoas lotaram as galerias e o plenário da Câmara de Vereadores de Londrina para assistir à sessão que concedeu ao fenômeno pop Luan Santana o título de cidadão honorário da cidade. A solenidade foi acompanhada por familiares, autoridades municipais e centenas de fãs, que fizeram fila para conseguir lugar e conferir de perto a entrega da honraria ao cantor, que nasceu no Mato Grosso mas possui residência em Londrina desde 2009.
De acordo com a ata, a homenagem foi concedida pela contribuição de Luan Santana a projetos sociais - foram cerca de R$ 250 mil doados à APS Down, à APAE e ao Instituto do Câncer de Londrina - e por ele ser considerado um ''embaixador cultural'' da cidade no resto do País. ''Só falta agora gravar seu próximo CD no Estádio do Café'', sugeriu o prefeito Barbosa Neto (PDT) durante a cerimônia.
Contabilizando cerca de 10 mil acessos através da transmissão ao vivo pela internet, a cerimônia na Câmara de Vereadores também teve uma rápida apresentação de uma das músicas de Luan, acompanhada por um coro de fãs. O evento rapidamente ganhou destaque nacional, em jornais, sites de entretenimento e redes sociais.
''É importante o povo opinar sobre essa homenagem e, de certa forma, nós já esperávamos o tamanho da repercussão nacional. O Luan é um fenômeno, e leva seu talento para o Brasil inteiro, sempre repercutindo positivamente para Londrina'', justifica o vereador Jairo Tamura (PSB), responsável pela proposta de conceder a cidadania honorária ao cantor.
''Neste pouco tempo em que ele mora aqui, já fez muito mais do que muita gente. Ele demonstrou uma grande solidariedade com as entidades municipais. E demonstrou o seu amor por Londrina em vários canais de televisão e programas nacionais'', aponta o vereador.
A reportagem não conseguiu falar diretamente com o cantor. Mas, segundo sua assessoria, o músico possui um amplo projeto social por todo o País, e distribuiu integralmente sua renda com a venda de CDs, DVDs e blu-rays (um valor de aproximadamente R$ 2 milhões até agora) para instituições beneficentes.
Mas nem tudo terminou em festa: a cerimônia do Legislativo também repercutiu negativamente através das redes sociais, repletas de críticas à homenagem ao cantor.
''Que tipo de mérito ele, com 21 anos, pode ter alcançado para receber esse título? Ele mora na cidade há apenas dois anos, nem ele nem ninguém da família nasceu aqui'', critica o repórter cinematográfico Roni Henrique, criador de um ''meme'' virtual que foi compartilhado mais de 450 vezes pelo Facebook.
''Eu não queria fazer uma campanha. Meu intuito era mostrar minha indignação com o fato. Amigos compartilharam e, depois, amigos dos amigos. Acabei gostando da repercussão, mostra que o povo não está tão alienado politicamente como se pensa'', declara Roni. ''Nasci aqui, amo minha cidade, viajo bastante e digo a todos o quanto é bom morar em Londrina, mas tem horas que certas atitudes, principalmente de quem está no poder, me desanimam. Fazer o quê?''
A professora e historiadora Marcia Guimarães também é contrária à homenagem, mas por outros motivos. ''O Luan Santana é um menino que faz filantropia e que divulga o nome da cidade, mas ele é ainda muito jovem'', explica Marcia, sugerindo uma falta de critério na escolha. ''O que é um cidadão honorário? A honra está diretamente ligada ao tempo histórico. É uma tradição conceder isso a alguém que tenha vivido, pelo menos, tempo suficiente para realmente honrar a cidade'', completa.
Superexposição
Elve Cenci, professor de ética e filosofia política da Universidade Estadual de Londrina (UEL), aponta outra vertente da discussão. ''A questão que acho mais interessante é: por que os vereadores resolvem, neste momento, em ano eleitoral, fazer homenagem a um cantor famoso?'', questiona o professor.
''Eu não acho justo discutir o mérito do Luan Santana. Eu discuto, sim, o mérito do Poder Legislativo da cidade. Em que atividade um vereador deve, primordialmente, gastar seu tempo?'', questiona o professor, que considera a superexposição na mídia em ano eleitoral uma moeda política valiosa.
''No final, o que está em jogo não é a história ou o merecimento da homenagem ao Luan, mas sim a forma como os políticos usam isso, aproveitando-se da fama de um cantor e perdendo um tempo valioso, que poderia ser usado para discutir outros projetos importantes para a cidade'', argumenta.


