Metamorfose ambulante
Travesti não é homem, nem mulher, é uma metamorfose ambulante. Tentar desvendar o universo do grupo é topar com uma caixa de surpresas onde a masculinidade e a feminilidade se misturam numa dramática e, ao mesmo tempo, glamourosa experiência.
Empenhado em revelar o que se esconde por trás dos estereótipos e preconceitos, o psicanalista e fotógrafo carioca Hugo Denizart escolheu os travestis do Rio de Janeiro como tema de sua nova pesquisa cujo projeto inclui uma exposição de fotos, exibição de um vídeo seguida de debate com o público e o lançamento de um livro.
Intitulado Engenharia Erótica (Jorge Zahar Editor), o livro já está nas ruas em edição bilíngue reunindo depoimentos de travestis cariocas, 80 fotografias e textos adicionais do antropólogo Peter Fry e da designer Márcia Cabral. Com uma interferência mínima do autor, o volume escapa da aridez de textos acadêmicos e interpretações ambiciosas que costumam marcar estudos do gênero.
Em pouco mais de 200 páginas, as palavras dos travestis e a série de fotos garantem o tom desconcertante do trabalho. A maior jóia do travesti é a sua ambiguidade. Só um homem sabe o que outro homem quer - diz Paulete. Mulher é normal, ninguém olha. Quando vêem que é um travesti, eles se interessam mais - afirma Vanessa.
Eu já fui agredida, já fui roubada, já fui queimada. Tudo isso porque tem homem que não admite que gosta de travesti. Então, ele vai, transa, faz tudo na hora e, depois, fica com raiva dele mesmo - acredita Suzane Kellen. Hugo Denizart reivindica um outro estatuto para o travesti, cuja imagem repulsiva propagada pela maioria da população é a de um homossexual promíscuo que se prostitui nas esquinas das grandes cidades usando salto alto e batom.
A idéia do travesti com aquela voz afeminada é só uma parte da história - afirma o autor. Ao contrário do que se pensa, eles são ativos em 90% das relações sendo requisitados para o papel de homem em quatro de cada cinco programas. Os travestis se apropriam da figura da mulher para se revelar extremamente viris. Basta imaginar o que é enfrentar o Rio de madrugada de sutiã e calcinha para perceber o quão afirmativos, corajosos e guerreiros eles são.
Não é à toa que muitos rejeitam a idéia de extirpar o pênis. Denizart conviveu três anos com o grupo. Como na maioria dos projetos a que se dedicou desde que começou a trabalhar com comunidades minoritárias no início da década de 80, este não contou com patrocínio, o que o obrigou a bancar a publicação com o próprio bolso.
As empresas não querem vincular seu nome a temas dessa natureza - lamenta o autor, que já mergulhou no mundo de prostitutas, pacientes psiquiátricos e internas de uma colônia penal. Estudando a bibliografia existente sobre os travestis, Hugo constatou a precariedade das tentativas para definir o grupo.
Alguns estudiosos vêem o travesti como uma imitação de mulher - nota. Mas, na verdade, eles fazem uma espécie de vizinhança do homem e da mulher definindo a sexualidade como um campo para a experimentação. Uma das questões levantadas na pesquisa, evocada aliás no título do livro, é a de que os travestis praticam uma engenharia erótica - ainda que não-autorizada pelos recursos médicos. Eles pensam o corpo como algo que você pode transformar - sublinha Denizart.
Mas diferente de uma mulher que faz lipoaspiração, puxa os olhos ou diminui o tamanho dos seios, a experiência de injetar silicone e tomar hormônios mexe com a própria sexualidade. O vôo do travesti é muito mais arriscado e violento e, quando não funciona, resulta em tragédia.
Ainda em sua incursão, Hugo descobriu a existência de uma hierarquia entre os travestis cariocas, na qual ganharia pontos quem já tivesse circulado pelas ruas da Europa. Eles marcam bem essa diferença, é como ter ou não ter carro para a classe média. O sonho da maioria é se prostituir em países como a França e a Itália, onde julgam serem melhor tratados do que aqui. De acordo com eles, voltar de lá com dinheiro é a realização máxima. É algo assim como eu fui para Hollywood e me tornei uma estrela.
Engenharia Erótica vai fundo no universo dos travestis trazendo seu próprio testemunho a respeito de assuntos como a transformação do jovem rapaz em travesti, a relação com a família, os ideais de beleza, a masculinidade e a feminilidade, o mercado sexual, a Aids e as drogas.





