Metallica faz show para 35 mil pessoas no Anhembi
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sábado, 08 de maio de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 09 (AE) - O sambódromo, templo do samba paulistano, foi tomado de assalto pelo heavy metal na noite de sábado. Cerca de 35 mil pessoas (segundo estimativa do coronel Ives Ferreira, da Polícia Militar) foram ao Anhembi para ver a banda norte-americana Metallica. A noite teve abertura dos brasileiros do Sepultura. Instalado no estacionamento do Anhembi, de costas para o sambódromo, o espaço improvisado para o show revelou-se ingrato com os espectadores. Havia um portão central, por onde a polícia fazia a revista. Isso causou uma fila imensa, que fez boa parte dos fãs perder o show do Sepultura.
Houve outros problemas. Os banheiros químicos eram em número insuficiente - 60 banheiros para 35 mil pessoas -, o que provocava novas filas, já dentro do estacionamento. A noite inesperadamente fria fez com que muitos fãs acendessem pequenas fogueiras ao redor da platéia para aquecer-se. A fumaceira incomodou um bocado.
Realmente não foi uma noite boa para o Sepultura, que voltou a ser tratado como "bandinha" pelos produtores. O equipamento de som que coube ao grupo era fraco e aquela nem de longe lembrava a banda que causou o maior impacto no Hollywood Rock de 1994. Só foi possível ouvir o vozeirão do vocalista Derrick Greene já no fim do show. Antes que ele cantasse Arise, clássico do grupo, a platéia em coro pedia: "Aumenta, aumenta!" Outro que berrou em vão, como convidado especial da banda, foi João Gordo, do Ratos de Porão.
Já com o Metallica a história foi bem diferente. A banda entrou no palco uma hora depois que o Sepultura saiu, às 10h55, tocando a cover Breadfan. Quando emendou Master of Puppets, um dos seus maiores sucessos, o público acendia isqueiros e cantava junto, empolgado. Depois, veio a cortante The Thing That Should Not Be. Só saiu duas horas e dez minutos depois do início do show, tocando as infernais Die Die My Darling e, finalmente, Enter Sandman e Battery. O público, embora extenuado, esperava ainda um quarto bis.
Não havia roldanas, nem homens voadores, nem cuspidores de fogo - apenas uma banda de hard rock no palco, tocando num cenário limpo, que tinha uma meia-lua crepuscular, amarela e vermelha, ao fundo. Mas o Metallica, empurrado pela bateria vigorosa de Lars Ulrich (talvez um dos melhores da história) e pelo carisma do vocalista James Hetfield, segurou a onda durante 19 canções.
"O Metallica tem uma longa lista de canções para esta noite", disse Hetfield. "O problema é que às vezes eu esqueço as letras", brincou. Não esqueceu nenhuma. Levou o público ao delírio com One, cantada em coro com isqueiros acesos e alguns fogos de artifício. Hetfield protagonizou um momento esclarecedor um pouco antes de cantar seu hit Nothing Else Matters. Algum fã na platéia jogou copos de água no palco e pediu outra canção. Hetfield parou tudo e disse umas verdades para o afoito, lembrando um pressuposto ancestral: tudo o que move um artista é sua necessidade de expressar-se - e não o dinheiro nem a vontade ególatra do seu espectador.
Essa coerência e também a disposição de não deixar-se engolfar pelos "compromissos" da indústria fonográfica é o que faz o Metallica ter tantos e fiéis fãs. Que reagem respeitosamente quando eles tocam suas baladas, mas que gostam mesmo é dos petardos.
O som do Metallica, apesar de levar às vezes o rótulo trash metal, soa absolutamente limpo e é muito elaborado. A guitarra de Hammett é audível, sem solos aleatórios nem exibicionismos. Ele e Hetfield, também guitarrista, só fazem blitzes sonoras quando a pegada é indispensável, em músicas como Fight Fire with Fire, Fuel e Bleeding Me.
O baixista Jason Newsted, discreto, tem uma predileção especial pelo Brasil, que homenageou num solo suingado de baixo. Falou sempre em português com a platéia, o que fez até um espectador declarar: "Pô, esse cara fala português melhor que o Predador!" Predador é o apelido de Derrik Greene, o vocalista do Sepultura.
O Metallica só não tocou muito seu disco mais recente, Garage Inc., só de covers. De resto, esteve quase tudo lá: tocaram The Memory Remains, The Four Horsemen, For Whom The Bells Tolls, King Nothing, Wherever I May Roam, Sad But True e Creeping Death, além das já citadas.


