Comida para todos os presentes. Isto mesmo, o público vai participar do espetáculo, degustando o prato preparado pelo ator. Utilizando a comida como metáfora e elemento cênico - cada ação no preparo da comida, cada som, cada gesto, tem um significado - o ator-cozinheiro ‘‘fala’’ aos cinco sentidos do espectador, num espetáculo cheio de aromas e sensações.
A compreensão do texto pode ser um pequeno problema já que Trias fala catalão, uma língua à parte dentro da Espanha e muito mais difícil que o próprio espanhol. Mas para o ator, isto não vai ser problema já que a ação transcorre em três níveis - texto, preparação da comida/manipulação dos objetos e coreografia acrobática. ‘‘O espetáculo é muito visual. O texto ilustra o que estou fazendo apenas em alguns momentos’’.
O espetáculo, concebido por Trias e pela diretora Elena Castelar, estreou ano passado na Espanha. Em todas as apresentações, na Espanha e demais países da Europa, o público acompanha, entre surpreso e intrigado, a magia que une caçarolas a relatos de assassinatos. Uma coisa é certa: ninguém pode ficar indiferente. ‘‘Uma coisa que queremos é promover um intercâmbio entre o próprio público. Normalmente, as pessoas vão ao teatro, sentam lado a lado e nem se cumprimentam. Procuramos criar uma intimidade com o público, para que ele troque impressões entre si, nem que seja para comentar o gosto da comida’’ - diz.
A propósito, Manel Trias passou um mês acompanhando um cozinheiro para aprender gestos e todo o cerimônial da arte de cozinhar. ‘‘Além disto, precisávamos escolher um prato que ‘soasse’ também de acordo com nossos propósitos’’ - explica. O resultado, só conferindo.
q Ficha TécnicaCompanhia catalã apresenta ‘‘Zigurat’’, espetáculo em que o ator fala do cotidiano enquanto cozinha para o público
Telma Elorza

DivulgaçãoManel Trias, o ator-cozinheiro de ‘‘Zigurat’’, cartaz de hoje do Festival de Teatro
Na antiga Mesopotâmia, zigurate era uma espécie de torre piramidal onde se celebrava o casamento do céu com a terra. ‘‘Zigurat’’ é também o espetáculo que a companhia catalã Zotal Teatre traz para o Festival Internacional de Londrina, com estréia hoje, às 21 horas, no Espaço Alternativo 1. Em ambas as situações, o conceito mítico está presente, transformando uma peça teatral num encontro cabalístico de muita imaginação.
O espetáculo se passa numa cozinha, onde um cozinheiro-alquimista vai misturando ingredientes como em um ritual mágico. No cenário, sete mesas, sete panelas, sete ingredientes temperados com sete textos do escritor espanhol Manuel Vicent. No texto de Vicent, as crônicas do dia-a-dia de pessoas comuns. No preparo da refeição, um ritual do cotidiano. Ambos refletem a transformação que podem ocorrer a partir de pequenos atos.
No centro do palco, o ator Manel Trias recita os textos, numa conversa com a platéia, e revoluciona a ação, construindo espaços diferentes com as mesas e objetos - uma cozinha, um labirinto, uma zigurate, uma sala de jantar - enquanto realmente prepara um prato, não se sabe bem qual. ‘‘Um prato comum, um cozido do cotidiano, que pode ser encontrado em qualquer casa espanhola. Adivinhar os ingredientes e o sabor final da comida faz parte do jogo ’’ - conta.
Degustação

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