Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Sexta-feira passada, em Florianópolis (SC), um público emocionado assistiu à pré-estréia nacional de ‘‘Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro’’, no cine do Centro Integrado de Cultura, o novo filme de Sylvio Back. As locações foram feitas na ilha no ano passado, durante cinco semanas, e, cumprindo o prometido, o cineasta projetou-o ali pela primeira vez. Agora, prepara-se para o Festival de Cinema de Brasília e em março de 2000 chega às telas de todo o País.
A noite foi de festa não só para Back, como para todo o elenco – nos papéis principais estão Kadu Carneiro e Maria Ceiça – e equipe técnica. A aceitação dos espectadores foi evidente. ‘‘Quero ver a reação do público comum, mas esse teste só vou ter no ano que vem’’, comentou o diretor no dia seguinte, ainda sob o impacto do sucesso.
‘‘Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro’’ é uma narrativa sobre a vida do autor catarinense que sofreu não só o preconceito racial, como a inveja da nata da intelectualidade brasileira, pelo desmedido talento que possuía. Onde se viu um negro dar-se ao luxo de ser poeta desse nível? Morreu de tuberculose ainda muito jovem – aos 36 anos – extremamente pobre e como tentara curar-se no interior mineiro, seu corpo voltou ao Rio de Janeiro num vagão de transportar gado.
Com todo esse material em mãos, Sylvio Back mergulhou na criação do filme. Porém, deixou claro: ‘‘Não sou um teórico sobre Cruz e Sousa, sou leitor dele.’’ E mais: ‘‘O filme é uma grande metáfora do que é ser negro no Brasil.’’ Através de imagens, trechos de poemas e cartas constrói-se a trajetória do filho de escravos que teve educação esmerada, dada pelo senhor dos seus pais, e a ousadia de tentar furar o bloqueio para ser aceito como um cidadão comum.
As diferenças raciais não foram o único martírio do poeta, na visão do diretor. ‘‘Ele sofria com a inveja, que é um elemento que está no DNA do ser humano. Até José do Patrocínio o maltratou, e depois pagou seu enterro. Só pagou para entrar para a história.’’
Seja como for, mesmo com preconceito e inveja, o poeta era um homem bonito, que atraía as mulheres e se sentia atraído por elas. Seus versos transbordavam erotismo, cantavam suas musas, traziam o latejar quente do sangue. Brancas e negras, igualmente, deixavam-se fascinar pelo moço que retribuía com a mesma intensidade.
Sylvio Back não entende por que este aspecto jamais foi evidenciado. ‘‘Até hoje o erotismo de sua obra continua em segundo plano.’’ Belas mulheres, nuas e seminuas surgem na tela, sob véus e sedas, mas também cenas doloridas como a farra do boi e um grupo de travestis, evidenciando a violência do homem contra seus semelhantes.
‘‘Sei que este não é um filme fácil, mas eu não flerto com o público, a mídia ou a crítica. Eu faço filme para mim. Antes de tudo, eu tenho que gostar. Fugi das emoções baratas. Abaixo as emoções baratas, que estão em moda hoje em dia’’, declarou. E, para não haver dúvida, deixou um aviso: ‘‘Fiz aqui o que sempre procurei fazer nos meus filmes – é uma pegada. Mas não me dublo. Não farei outro filme igual a este.’’O cineasta Sylvio Back faz uma leitura pessoal e sensível em ‘‘Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro’’. Filme teve pré-estréia em Florianópolis
Lúcio F. GiovanellaO ator Kadu Carneiro num dos momentos finais de ‘‘O Poeta do Desterro’’: a falta de perspectivas aprisiona a vidaLúcio F. GiovanellaSylvio Back orienta Maria Ceiça que no filme encarna Gavita, mulher de Cruz e Sousa

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