A partir de uma notícia de jornal verídica sobre a descoberta de dois índios isolados de um etnia considerada extinta há 20 anos - a Suruí Parter - que se recusavam a ter contato com a nossa cultura, em 2008, a Cia Teatro Balagan, de São Paulo, deu início a uma abordagem teatral que lança luz à questão indígena. Fruto de mais de três anos de pesquisa, envolvendo consultoria com pesquisadores e antropólogos, "Recusa" será apresentada hoje e amanhã, às 20h30, no Teatro Filo, dentro da programação do Filo 2013.
Narrado e cantado por dois índios Piripkura, a montagem faz uma metáfora do universo ameríndio, com seus conflitos e possibilidades de encontro. "A riqueza cultural indígena é imensa e ainda sabemos muito pouco sobre eles, que têm uma forma muito diferente da nossa forma ocidental de ver a vida e são muito abertos para esse diálogo", ressalta o ator Antonio Salvador, idealizador do projeto e que no palco atua com o ator convidado Eduardo Okamoto. A direção é de Maria Thaís.
Em cenas independentes, a montagem mostra histórias verídicas e míticas que reforçam a importância da relação com o outro, mais precisamente do índio com o homem branco. O canto também tem papel de destaque durante o espetáculo, que contou com a direção musical de Marlui Miranda, renomada pesquisadora e performer dos cantares indígenas brasileiros. "O canto é um mecanismo de comunicação muito forte para os índios, além de ser agregador, e executamos as canções em vários idiomas indígenas", comenta Salvador, lembrado que para a peça foi criada uma "interlíngua", idioma que utiliza vocábulos de sete idiomas indígenas. "É uma oportunidade rara para o espectador vivenciar essa sonoridade, que não atrapalha a compreensão do espetáculo", adianta.
A pesquisa para a montagem também incluiu trabalho de campo, em que os atores passaram um período numa aldeia indígena em Rondônia, que em outubro irá ver pela primeira vez a encenação do grupo. "Os índios não têm crise de identidade, quem tem somos nós. Eles acreditam que em tudo há humanidades, no plural; tudo é humano, mesmo um animal, o que muda é apenas a pele, a forma como o ser vivo se apresenta em determinado momento; há muito o que aprender com eles", observa Salvador.
Como uma metáfora de uma forma de resistência, a montagem busca promover um novo olhar sobre a questão indígena e sua organização social. "É comum o público ficar admirado com a complexidade da cultura indígena após assistir à peça e acho que de certa forma estamos conseguindo ampliar a visão das pessoas sobre o assunto", conclui Salvador. A montagem já foi apresentada para diversas comunidades indígenas de São Paulo.

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