Metáfora argentina
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de junho de 1997
Telma Elorza 
Enquanto retalham pedaços de carne, dois açougueiros discutem quem é o pai de uma criança concebida pela mulher que ambos amaram no passado. Em meio a vísceras, serras, carnes, ganchos e outros instrumentos do trabalho, desfilam suas memórias fragilizadas e as banalidades do discuros de quem maneja o poder. Este é ponto central do espetáculo El Corte, do argentivo Sportivo Teatral, que está se apresentando no FILO, hoje e amanhã, às 22 horas, no Teatro Núcleo I, em Londrina.
Roteirizado e dirigido por Ricardo Bartís, sob texto de criação coletiva, El Corte é uma grande metáfora sobre a situação política e cultural da Argentina, sem, porém, cair no discurso político. Nossa intenção foi fazer uma reflexão sobre o que é ser argentino hoje. Neste caso, a repetição obsessiva por um passado que não termina de passar, as consequências de uma sociedade que ainda agoniza com a experiência da repressão e o medo enorme da ausência de uma certeza de ser - afirma. Segundo ele, o espetáculo mostra que a carne morta está mais viva que a vaca.
Baseado fortemente no texto - que traz muitos regionalismos - , o público poderá ter uma certa dificuldade em compreender o espetáculo. É uma retórica cheia de repetições e confusões, uma linguagem que revela que a palavra não é usada para entendimento. No espetáculo, a linguagem é um mecanismo que está ideoligamente atravessado - explica. Mesmo assim, pode fazer ressoar alguns aspectos básicos da memória dos brasileiros.
Quatro atores em cena apresentam os açougueiros, a mulher e a criança. Mas só dois estão presentes no tempo real. A mulher pode ser um fantasma, um objeto mitológico que representa a mãe, a pátria e a vaca. Uma fantasia trazida pelas lembranças dos açougueiros. A criança - menino ou menina, híbrida, não sabemos - mostra como se educa e se projeta as fantasias dos pais - comenta.
O espetáculo estreou há seis meses, na Argentina e já rodou por aquele país. É o primeiro que o grupo monta em conjunto, partir de uma idéia do próprio diretor. Nós não somos um grupo estabalecido. Somos uma associação circunstancial de atores que queriam fazer um trabalho em conjunto - diz.
Este tipo de associação é, segundo Bartís, também uma forma de manter a independência das formas tradicionais de produção. Na Argentina, a forma dominante tem a ver com o teatro representativo, dramático, com personagens compreensíveis em suas identidades e psicologia - explica.
Neste trabalho, o diretor explica que o texto é um material atravessado pelo relato da atuação, onde os atores experimental até o limite. A nossa realidade é mais ou menos uma perspectiva sobre o homem e sua loucura. E entendemos a produção artística como um ato defensivo e que não sobrevive com um público domesticado pelo domínio cultural da TV, da política e da Igreja - afirma.


