METADE MENTIRA, METADE VERDADE
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de setembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br> De Londrina 
O humor permanece. Quem imagina que vai conhecer o escritor e roteirista José Roberto Torero e encontrar um homem de humor refinado não está errado. Chegando a Londrina na última quarta-feira, foi logo destilando um pouco da ironia que apresentara em seus livros, filmes, roteiros, peças e crônicas.
Ele veio conversar com o público sobre sua obra a convite da Books Livraria e Locadora, que já trouxera Carlos Heitor Cony e pretende para o próximo ano consolidar na cidade um debate permanente sobre o universo literário - o projeto ''Londrina, Literatura & Cidadania''.
Torero pessoalmente é mais ou menos como o escritor. Sob a fala ponderada vai se desenvolvendo a ironia que tudo satiriza. Ele diz que aprendeu com o nosso mestre maior, Machado de Assis, sua principal influência ao criar ''O Chalaça''. E que cada um de seus livros segue um estilo dos autores que admira - ''Xadrez, truco e outras guerras'' segue Saramago, ''Os Vermes'' se assemelha ao estilo do americano Kurt Vunnegut Jr. (Cama de Gato) e ''Terra Papagalli'' está mais próximo de Laurence Sterne (A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy), autor que Machado também admirava.
O cinema ele pretende abandonar, ''não se pode servir a dois senhores''. Mas está escrevendo três roteiros - o documentário ''Pelé'', de Aníbal Massaini Neto; histórias de amor que serão conduzidas por José Alvarenga, o diretor da série ''Os Normais''; e um documentário sobre a morte, ainda sem título.
A literatura parece ser a amante mais duradoura, já que nos próximos meses lança três livros, todos sobre futebol. ''As Cabeças de Bagre Também Merecem o Paraíso'', uma coletânea de 32 crônicas publicadas pela Folha de S.Paulo acrescida de 26 biografias de jogadores inventados, será o primeiro a sair do prelo, no próximo dia 19 de outubro, em Santos. Em 27 de novembro, é a vez do ''Dicionário Santista'', editado pela DBA, um registro em parte ficcional da história do Santos Futebol Clube. Em fevereiro de 2002, ''Futebol é Bom pra Cahorro'', editado pela Panda, uma história sobre as Copas do Mundo misturando o que ocorreu nos certames e o que suas personagens viveram. O próximo projeto ficcional deve envolver mais um tema histórico, o da abolição, mas não há muito de concreto ainda.
Em meio a tantos projetos, um grupo de teatro de Curitiba pediu no ano passado para encenar a peça ''Romeu e Julieta Segunda Parte'' (texto não publicado) e seu primeiro livro, ''O Chalaça'', deve virar minissérie nas mãos de Carlos Lombardi, mas sem data prevista para ser exibido na TV.
Em sua primeira visita a Londrina, Torero não gostou de ver tantos prédios no centro da cidade, e lembrou que sua única referência sobre a cidade eram as cores azul e branca do uniforme do Londrina Esporte Clube. Leia a seguir trechos da entrevista concedida à Folha2
Em seus filmes percebe-se uma grande importância com o humor. Principalmente em ''A Alma do Negócio'' fica evidente a sua veia irônica. E na maioria das vezes você acaba agradando a crítica e o público. Há um estilo que você segue para atingir esse resulatdo?
Tem alguns cineastas de que eu gosto mais, não sei se eu sigo. Woody Allen, gosto muito; Bergman; Ettore Scola... um cara que começou com comédia na década de 50; o Coppola acho muito bacana também; Stanley Kubrick; Truffaut. No cinema brasileiro, eu gosto do Glauber Rocha, principalmente do ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' e do ''Terra em Transe''.
Em suas obras você retrata fatos históricos por meio de uma narrativa ficcional. Como surgiu esse estilo?
Acho que veio dessa incapacidade de só fazer ficção, talvez porque eu tenha feito jornalismo. Você fica meio dependendo de um mote real. Eu não consigo, por exemplo, sentar e ter uma idéia do nada. Sabendo disso eu faço uma pesquisa histórica para embasar... Mas não tem nehuma relação com o relacionismo fantástico. E observo que ultimamente essa dependência pelo real tem diminuído.
Você tem obras teatrais pouco conhecidas. Escreveu três peças mas só uma foi encenada (''Omelete'', por Hamilton Vaz Pereira). Como é esse ''Romeu e Julieta Segunda Parte'', escrita em 1992?
É a história de Romeu e Julieta caso tivesse dado certo o plano. Acontece a cena final, os dois caem, Julieta vê que não morreu com a adaga, Romeu vê que não tinha tomado veneno - o boticário tinha vendido um laxante. Os dois acordam, prometem viver felizes para sempre e fogem para Mântua, o que era o plano inicial. Eles combinam que em Mântua, em cada aniversário, ele vai dar uma adaga para ela e ela vai dar um frasco para ele. Aí a peça mostra os aniversários de casamento - o primeiro, o décimo e as bodas de ouro. Aí eles já estão se odiando completamente. Aliás o que é bom em Romeu e Julieta é que a história acaba no ápice, em um momento perfeito. Em 50 anos eles vão acumulando rancores, ódios, picuinhas, e acabam se matando. Ele vira um bêbado praticamente, abre uma loja de vinhos. Ela põe veneno em um cálice dele. Ele põe veneno na adaga dela. Ela virou uma vendedora de bolos, tornando-se uma mulher gordíssima.
E a outra peça que não foi encenada, ''Sic Transit Gloria Dei'', de 1991?
É uma peça sobre o irmão caçula de Cristo, o Cristóvão, mas se passa hoje em dia. Deus vê que ele está em baixa, não está dando muito ibope e resolve mandar o Cristóvão para Terra para fazer algumas reformas. Só que ele é muito liberal. Prega na verdade os pecados, não as virtudes. Ele diz por exemplo que a ira é uma coisa boa, pois é ela que faz as grandes mudanças no mundo. A gula é muito boa porque é uma arte, como a gente tem que comer mesmo é melhor com prazer. A luxúria é uma qualidade muito importante porque permite a preservação da espécie. Cristo vê essa liberalização; não gosta; e eles travam um grande duelo eleitoral na televisão. No final os dois são assassinados e aí ficam sabendo que foi Deus quem mandou. É uma grande jogada você assassinar o seu profeta, você consegue ficar com um marketing grande.


