São Paulo, 18 (AE) - Na maioria dos prêmios, o júri do Festival de Cannes deste ano, presidido pelo polêmico cineasta David Lynch, ousou. Fez apostas na inovação e na ousadia ao premiar "Rosetta", dos irmãos Dardenne, da Bélgica, e "A Humanidade", de Bruno Dumont, da França. Mas, se ousou no principal, o júri de Cannes também coroou valores consagrados: Pedro Almodóvar ganhou o prêmio de direção pelo brilhante "Tudo sobre Minha Mãe", em cartaz na cidade, e Manoel de Oliveira levou o prêmio do júri por "A Carta", que passa amanhã (19) na mostra (às 16 horas, no Vitrine). Oliveira é sempre atração na mostra. Foi o evento que o revelou para o público brasileiro. Nos últimos tempos, quase não há ano em que falte um filme do grande Oliveira.
Há uma espécie de anacronismo que é essencial no cinema de Oliveira e não apenas porque, aos 91 anos (nasceu em 1908, no Porto), o mestre português é o mais velho cineasta do mundo em atividade. Esse anacronismo é, mais do que nunca, evidente em "A Carta". Oliveira gosta de temas que estão em desuso no cinema atual. Mas, na verdade, não é um anacrônico. Nos seus filmes, ele faz com que coexistam, muitas vezes harmoniosamente, vários tempos: o tempo breve da vida, o tempo passado da memória e o tempo eterno da arte. Os dois primeiros interessam-lhe como forma de iluminar o terceiro ou, então, é esse último que dá sentido aos outros dois. O próprio Oliveira já disse que a arte é o segredo da sua longevidade.
"A Carta" começa e termina com concertos de rock que situam o filme no tempo presente. Entre esses extremos, rola a história que Oliveira adaptou do romance "A Princesa de Clves". O livro de Madame de Lafayette é considerado precursor do romance psicológico. Foi objeto de uma adaptação acadêmica de Jean Delannoy (apesar do roteiro do poeta Jean Cocteau) nos anos 60. Estranha história: a princesa de Clves é uma mulher que se casa sem amor, mas tem tanto respeito pelo marido que rejeita outro homem, pelo qual se apaixona. Ao confessar esse amor ao marido, provoca a morte dele, de desilusão, de tristeza. Livre, enfim, a princesa não realiza seu amor. No livro, recolhe-se ao isolamento. No filme de Delannoy e Cocteau, ela morre. No de Oliveira, o desfecho é outro.
De onde vem essa sensação de anacronismo que "A Carta" deixa no espectador? Não é tanto da escolha que a protagonista faz, de viver com a lei de Deus, do marido e da mãe. É de uma rigidez que se manifesta na divisão em quadros, com pesados letreiros, como se Oliveira ainda estivesse no cinema mudo. Ele faz com que Pedro Abrunhosa, no próprio papel, seja o roqueiro mais formal já visto no cinema. Desde os anos 50, o rock tem sido sempre uma forma de contestação e inconformismo. Não com Oliveira.

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