Virou moda escavar o baú da música popular brasileira. Nos últimos dois anos, sucessivas preciosidades têm vindo à tona, seja a bordo de coleções e séries ou por meio de caixas individuais como as que resgataram recentemente as obras de Noel Rosa, Jacob do Bandolim e Dorival Caymmi.
O produtor paulista J.C.Botezelli, o Pelão, dá sua contribuição à voga disponibilizando de seu arquivo as gravações dos últimos shows feitos em São Paulo pelos compositores Cartola e Adoniran Barbosa. Os lançamentos chegam ao público pelo selo Kuarup Discos. Tanto ‘‘Cartola ao Vivo’’ quanto ‘‘Adoniran Barbosa ao Vivo’’ foram gravados na casa noturna Ópera Cabaré: o primeiro na noite de 30 de dezembro de 1978 e o segundo em 10 de março de 1979.
No CD, o fundador da Mangueira mostra-se contido com sua voz seca, acompanhado pelo Regional do Evandro com o próprio Evandro no bandolim, Pinheiro no violão, Lucio no cavaquinho e Zequinha e Silvio Modesto no ritmo. O repertório reúne clássicos como ‘‘As Rosas Não Falam’’, ‘‘O Mundo é um Moinho’’, ‘‘Acontece’’, ‘‘Sim’’ (parceria com Oswaldo Martins) e ‘‘O Sol Nascerᒒ (com Elton Medeiros).
O disco é o único registro existente dos shows do mestre, que morreu em 1980 cravando seu nome na história como um dos cinco maiores compositores da MPB de todos os tempos. O lançamento mistura-se a uma série de projetos celebratórios que teimam em manter viva a obra do compositor entre as novas gerações. Muita coisa borbulha nos fornos, à espera de patrocínio.
Entre as relíquias consta uma fita de três horas gravadas com o compositor ainda nos anos 60 pelo cronista Sérgio Porto, e que se encontra nas mãos do fotógrafo e colecionador Humberto Franceschi. Fala-se também da biografia ‘‘Mestre Cartola, O Canto Sem Idade’’, de autoria de Carlos Alberto Carvalho, que a editora Revan estaria em vias de publicar. Anuncia-se ainda o projeto de um livro com melodias, letras e cifras de Cartola incluindo 53 inéditas.
Isso sem contar o filme ‘‘Peito Vazio’’ (título de uma de suas composições), sobre a vida do mestre, que os roteiristas e diretores pernambucanos Lirio Ferreira e Hilton Lacerda planejavam lançar na última temporada para coincidir com os 20 anos de morte do homenageado. Mas se a memória do carioca Cartola arrebanha admiradores, não fica atrás o respeito desfrutado pelo paulistano Adoniran Barbosa, ainda que seja inegável a supremacia de talento musical do primeiro.
No CD ‘‘Adoniran Barbosa ao Vivo’’, o autor de ‘‘Samba do Arnesto’’ desfila seus sucessos acompanhado pelo grupo Talismã. Estão ali ‘‘Trem das Onze’’, ‘‘Saudosa Maloca’’, ‘‘Viaduto Santa Ifigênia’’, ‘‘As Mariposas’’ etc. Ao contrário de Cartola, Adoniran está solto no palco, tagarelando entre uma faixa e outra – chega a parar uma música no meio para contar um ‘‘causo’’.
Em ‘‘Samba do Arnesto’’, deixa a platéia entoar os versos. Bem-humorado, mas com a garganta castigada, o mais paulista dos sambistas interrompe ‘‘Samba no Bexiga’’ para fazer troça do verso ‘‘Domingo nós fumo’’. Adoniran brinca aqui com os efeitos de seu português (propositalmente) errado, uma característica presente em quase todo seu repertório.
Ele morreria em 1982, três anos e meio depois deste show, seu show de despedida.

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