Mestre respingava arte em tudo
O livro organizado por Maria Angélica Abramo é um diário de guerra. Mas impossível falar de Antônio Saperas sem lembrar sua contribuição para o teatro de Londrina, onde no início dos anos 80 chegou a coordenar um curso de artes cênicas no Departamento de Cultura.
Entre seus alunos, alguns nomes que mais tarde se tornariam pesos-pesados das artes, como Mário Bortolotto, criador do grupo Cemitério de Automóveis e ganhador do prêmio Shell de teatro, e Márcio Américo que escreveu e montou peças, trabalhou na Rede TV em São Paulo e hoje se dedica à literatura. Márcio Américo, que escreveu uma crônica sobre Saperas integrada ao livro, lembra o catalão como uma figura que dava broncas nos ensaios sem meias medidas. Fazendo um teatro tradicional, com marcação de ponto na boca do palco e cenários que ele mesmo produzia com a ajuda dos alunos, Saperas foi para Londrina um catalizador de talentos, sinalizavando caminhos. Em busca de um gênero mais radical de teatro, a moçada inquieta que o acomapanhou em algumas montagens como ''Dona Xepa'', encenada em 1982 na cidade, tomou outros rumos, mas tem no mestre uma pessoa que, se não chegava a ser transgressora, gostava de fazer tudo bem feito. Sob sua direção, o espetáculo tinha que rolar impecável.
Em casa, com a mulher Maria Cândida - que conheceu em Londrina e com quem teve seis filhos - Saperas também criava um ambiente em que a arte respingava em tudo. Além das noites insones que passava escrevendo memórias, peças de teatro e poesia dramática, criava os filhos para que vislumbrassem a força da criatividade. Seu filho mais velho, Jorge, herdou dele o gosto pelos entalhes de madeira, além de se dedicar à pintura. Hoje, no lançamento do livro na Biblioteca Pública de Londrina, vai expor uma série de telas abstratas e algumas esculturas em madeira. Ele considera a ocasião propícia para homenagear o pai que, em vez de dar bolas, carrinhos e armas de brinquedo para os filhos, preferia presenteá-los com muitos lápis de cor, papel, giz de cera, tinta e o que mais servisse para incentivar a veia artística. Tudo muito à vontade, sem imposição, como lembra também a filha Teresa, estudante de enfermagem, que não esquece os domingos em casa com o pai ouvindo ''sardanas'' e óperas. Quando não trabalhava na marcenaria, Antonio Saperas dedicava o tempo livre às artes, esculpindo, escrevendo peças, poesias dramáticas e fumando muitos, muitos cachimbos. Uma figura ímpar que transpôs barreiras geográficas e culturais para deixar sua marca em Londrina.
(C.M.





