Mestre Pedrinho
Arquivo FolhaPianíssimo vai ao ar todos os sábados, às 23 horas, na Rede VidaO venturoso controle remoto vai fazendo saltar imagens e sons disso e daquilo. Alguém toca uma boa canção - opa! - das que não se ouve mais no rádio, pois não há mais rádio que toque isso. Pedrinho Mattar, na Rede Vida. André de Sapato Novo, Odeon, Sleep Lagoon, Volver, Manhattan, Laura, Ebb Tide, Brasileirinho, Mr. Sandman, Guacyra, Triste (sua beleza é um avião), Uno, Wave, Lábios que Beijei, La Puerta (la puerta se cerró detrás de ti y nunca más volviste a aparecer). Desfilam Ernesto Nazareth, Tom Jobim, Waldyr Azevedo, Bach, Chopin, Zequinha de Abreu, Cole Porter, Gershwin, Noel. Pedrinho toca o melhor. E abusa, como num arranjo brejeiro-brasileiro de Pour Elise, seguido de um polido e humilde pedido de desculpas a Beethoven pela irreverência, como se fosse possível.
Embora supertalentoso, Pedrinho tem reconhecimento público mixuruca. Decerto porque não compõe, não canta, não faz chavões, não está nas paradas; não é desses baratinados pagodeiros que afrontam o samba numa mesmice cruel; não forma dupla caipira vestida de brocados que canta dores-de-corno. Também não fica chacoalhando as cadeiras, mexendo mais um pouquinho, descendo a bundinha. Argh!
Mas é o maior pianista brasileiro, com conhecimento abrangente de música popular de bom gosto de qualquer parte do mundo e de qualquer idade. Não tem sucesso ribombante. Tem prestígio. E também é muito melhor do que Richard Clayderman, que vende milhões. O quê? Clayderman vende milhões e Pedrinho uns 100 mil discos quando se dá bem? Então, como este pode ser ser melhor do que aquele? E é, de sobra. Perto de Pedrinho, Clayderman é tocador do Bife em formatura de berçário. O que vende é seu topete ariano. Foi cozido no forno mais quente da mídia - e é norte-americano, tem biotipo de vencedor. É do país do conosco ninguém podosco. Não importa se o louro toca com quatro dedos e o careca do Pedrinho faz cascatas com perfeição.
Pedrinho não aparece, quase. Claro, a mídia torce o nariz para quem faz o tipo que ele faz - não comete uma lambadinha aqui, um entre-tapas ali, um pinga-ni-mim acolá, uma insolência malemolente assim-assim. Como é que um sujeito que ataca de Debussy e se refere com intimidade a antigos musicais da Metro ou da Vera Cruz pode querer alguma coisa, ir para a galera? Não vai. Cabem-lhe uma TV principiante e fora do circuito, o som-para-bêbados dos piano-bares e dos inferninhos, a fumaça das churrascarias, as recepções fechadas, os casórios, os jantares-dançantes-para-casais-em-crise. Tudo muito restrito. Ainda assim, para dividir bemóis com o ruído dos talheres. Deve doer.
Mas, no programa, Pedrinho parece feliz. Confessa preferir que lhe peçam essas músicas, falando até com cuidado para não passar por passadista. Quando se revela, quer se compartilhar, afirma que quer fazer música agradável, e que não é com ele aquela música de bate-estaca, para boi dormir, descartável, de estação, axé, dancing.
Como nos dias de hoje só muitíssimo de vez em quando surge uma Beatriz, um Retiros Espirituais, um Stardust, um Smile, Pedrinho tem que buscar aquelas perpetuadas canções do baú - que agradam permanentemente. Somos poucos Edu, Chico, Gil, Carmichel, Chaplin, Manzanero, Flávio Venturini, Milton, Caetano, os Valle, John Barry. Apenas um Roy Orbison compôs a única In Dreams.
Há ouvinte escrevendo para Pedrinho tocar até Rachmaninoff. Até? Ora, é possível também incluir Borodine. É ir longe demais? Nada disso. Esses dois fabulosos compositores clássicos são extremamente populares, e suas obras não existem apenas para quem quer avançar no aprendizado do piano. Tal e qual Ravel, que ao escrever um simples exercício, não imaginava - nem poderia - que o seu Bolero franco-hispano-árabe fosse virar cult popular permanente no mundo inteiro, com duração superior a 50 anos.
Pode haver decreto de que Rachmaninoff e Borodini, assim como Pedrinho Mattar, sejam clássicos e, portanto carreguem a pecha de inatingíveis para a mediocridade estabelecida da música-de-novela. Mas não é assim. Ambos são populares: uma passagem inteira do Prince Igor, de Borodine, virou Stranger in Paradise, creditada para dois espertalhões, Wrigh e Forrest, e que integrou uma peça de notável sucesso na Broadway; e o Concerto nº 2 para Piano em Dó Menor, de Rachmaninoff, apresentado pela primeira vez em 1901, transformou-se na tocadíssima All by Myself, que um certo Eric Carmen copiou descaradamente e com a qual fez sucesso nos anos 70/80. As duas tocam até hoje, ficaram populares, ainda que por meios oblíquos, pois os autores e as editoras acabaram se esquecendo, nas gravações, de dar crédito aos verdadeiros compositores.
Pedrinho Mattar é mestre, toca tudo isso - e contribui grandemente com aquilo que se pode chamar de popularização ou democratização do gosto refinado, assim como muitos pianistas pouco famosos ou até anônimos do Brasil. Ele está montado numa excelente obra de mais de 40 anos de estrada e, por isso, merece muito respeito. Ele é ótimo - nós é que não prestamos atenção, no ímpeto de segurar o tcham para imitar vertiginosos macaquitos alucinados. Seus dedos parecem vinte. Com Pedrinho dá para recuperar a confiança de que a boa música pode ser salva.





