Literatura na TV é coisa rara. Com exceção de três ou quatro programas de entrevistas nos canais pagos, o universo das letras permanece estranho aos donos da emissoras. A Cultura, por seu caráter público, é uma exceção. Um dos destaques de sua atual programação é a série ‘‘Grandes Mestres’’ que, desde o ano passado, vem exibindo documentários sobre nomes consagrados da pintura e da literatura.
A edição de hoje traz o escritor argentino Jorge Luis Borges, protagonista do documentário ‘‘Borges e Eu’’, que vai ao ar às 22h30. O programa foi rodado na própria casa do escritor, três anos antes de sua morte (em junho de 1986). O bruxo, como era chamado, passou os últimos trinta anos de sua vida totalmente cego e seu trabalho parece mostrar uma mente que adquiriu uma qualidade extra de clareza e compreensão para compensar sua cegueira.
Ele era um homem que duvidava de todas as certezas dos homens, até das próprias: um homem que se aferrava à sua descrença na crença de que só assim a certeza podia ser encontrada. O paradoxo é caracteristicamente borgesiano. Borges era um mestre do paradoxo e seus contos profundamente originais, que fizeram sua fama, são parábolas de possível crença ou no sentido ou no acaso irracional do mundo.
No documentário, Borges tenta relacionar suas histórias com sua experiência, reconciliar a figura pública e a privada, simbolizadas por ele mesmo como ‘‘Borges’’ e ‘‘Eu’’. O programa traz ainda uma longa entrevista com o escritor e trechos dramatizados de sua obra, explorando seu fascínio por sonhos, espelhos, labirintos, violência e erudição. Borges raramente admitia uma base psicológica pessoal para suas histórias, e, no documentário, afirma sua posição de que elas são apenas elaborações jocosas de idéias filosóficas.
Ele também alega não ser político, o que pode ser contestado tanto pela direita como pela esquerda, já que oscilou entre posições reacionárias e progressistas durante os anos de chumbo. Se por um lado defendeu os militares no poder, por outro desaprovou publicamente a ditadura de Peron, além de condenar o assassinato de adversários políticos.
O filme termina com ele dizendo: ‘‘Tenho esperança na morte, muita esperança na morte’’. Os trechos dramatizados são de ‘‘O Encontro’’, ‘‘O Outro’’, ‘‘Funes o Memorioso’’, ‘‘Elvira de Alvear’’, ‘‘O Sul’’ e ‘‘A Morte e a Bússola’’. Grandes Mestres da Literatura tem apresentação e texto de Arthur Nestrovsky.

mockup