Um mestre do violão está desde anteontem em Londrina. Ele veio participar do 22º Festival de Música, onde dá um recital hoje à noite no Teatro Marista. Turibio Santos é nome consagrado em enciclopédias. Expoente do violão erudito brasileiro, fez a primeira gravação dos ''12 Estudos'' de Villa-Lobos aos 19 anos.
De lá para cá, empilhou credenciais que lhe garantiram reputação internacional. No Festival, ele vem apresentar um repertório misto com músicas brasileiras e espanholas de compositores como Villa-Lobos, Turina, Gaspar Sanz, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João Pernambuco.
''Escolhemos dois repertórios vastos, ricos e que apresentam os maiores recursos em termos instrumentais. É uma boa mistura de paella com feijoada'' brinca ele. Além do recital, Turibio veio proferir uma palestra sobre os projetos sociais desenvolvidos no Museu Villa-Lobos (RJ), que dirige desde 1986. Aproveitou a visita também para promover seu livro ''Mentiras ... ou Não?'', que acaba de sair pela Jorge Zahar.
Turibio nutriu seu talento no berço. O pai era violonista. Estudou na França, Inglaterra e Espanha. Gravou 54 discos o último no ano passado: ''Johan Sebastian Bach visita a Mata Atlântica''. Como pensador da cultura, vem desenvolvendo trabalhos de preservação e divulgação de partituras para o violão, objetivo da série ''Violão Amigo'', já com três volumes publicados o quarto trará uma valsa inédita de Villa-Lobos, além de uma suíte de caráter popular do próprio autor.
Na palestra realizada ontem na Associação Médica, ele abordou o tema ''Educação para Crianças Carentes'' partindo de duas experiências realizadas com menores moradores das favelas cariocas. A idéia era atraí-los para a música oferecendo aprendizado de instrumentos. A primeira iniciativa foi há 15 anos, quando trabalhou com jovens moradores do morro de Dona Marta.
A segunda foi há três anos, com a colaboração dos próprios participantes da experiência pioneira, só que agora como professores. Dessa vez, o projeto contou com apoio da família Moreira Salles. ''Nossa intenção era profissionalizar crianças carentes que queriam ser músicos. E fomos bem-sucedidos na proposta. Atualmente, estamos com 27 crianças em estágio avançado'' conta ele.
O núcleo reúne alunos de viola, violoncelo, contrabaixo, percussão e outros instrumentos. ''São eles próprios que escolhem o que querem tocar. Nós damos uma segunda opção como uma forma de aumentar suas possibilidades de sobreviver da profissão'' acrescenta. Turibio se empolga ao lembrar que há, atualmente, 3 mil crianças sendo beneficiadas com iniciativas semelhantes no Rio de Janeiro.
Acredita que este seja um caminho para diminuir as desigualdades sociais. ''Percebo que os garotos sentem satisfação em retribuir o que recebem da sociedade. Quando um garoto é incluído, ele quer incluir outros também. Existe um voluntariado, uma generosidade no movimento'' salienta. Comemorando 40 anos de carreira, Turibio decidiu registrar em livro algumas reflexões e passagens marcantes de sua trajetória.
Em ''Mentiras...ou Não?'', que está lançando esta semana, fez uma ''quase autobiografia'', como aponta o subtítulo. ''É um livro econômico em palavras, mas sincero e cheio de histórias fortes'' resume. Em 106 páginas, o violonista reúne episódios pitorescos narrados em forma de crônicas percorrendo desde sua estréia em São Luís do Maranhão (onde nasceu) até momentos de glória internacional como quando se apresentou com a Royal Philarmonic Orchestra em Londres.
No livro, ele escreve ainda como teve que aprender em um mês o ''Concerto de Aranjuez'' para gravá-lo com uma orquetra francesa. Aborda também os animados saraus na casa de Jacó do Bandolim, o relacionamento musical com Andrès Segovia e o intercâmbio com Rafael Rabello e Guinga. Em outro texto, critica o mercado fonográfico brasileiro e mundial. Este último assunto pipocou também durante a entrevista.
Para ele, a atual crise por que passa a indústria do disco é resultado de sua própria ganância lucrativa: ''Os donos das gravadoras estavam acostumados a tirar a pele de alguns artistas eleitos sem se preocupar com o elenco. Eles sugavam aqueles que davam retorno financeiro imediato dando as costas para o restante. Agora ela está pagando seus pecados com a explosão da pirataria e o avanço da tecnologia que possibilitou aos artistas gravarem seus discos sozinhos em casa''. Turibio sobe ao palco às 20h30.

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