Mestre do soul e funk ataca de MPB
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Fabiano Camargo Sucursal de Curitiba 
Arquivo FolhaEd Motta: De zen eu não tenho nada. Adoro gente mal-humorada, com dor no fígado, críticaConsagrada no terreno do funk, soul e outras vertentes da música negra-norte americana, a voz de Ed Motta anda passeando com frequência cada vez maior por praias mais tropicais. Esta nova fase está sendo consolidada no novo disco que o músico começou a produzir no início deste mês. O jazz acabou me levando à conhecer melhor a MPB, que vai entrar como outra linguagem a ser misturada no meu trabalho, explica Motta. O cantor e compositor apresenta-se em Curitiba hoje, no Aeroanta, com um repertório que, se não traz as novidades do disco, deixa claro os toques de brasilidade com inclusões de clássicos da MPB como Beatriz, de Edu Lobo e Chico Buarque.
O grande responsável pela aproximação de Ed Motta com a MPB foi o compositor e instrumentista Guinga. Antes, eu não gostava de música brasileira, confessa Ed. Até chegar a Guinga, passou pelo caminho do jazz. Ouvia muito Bill Evans e foi ele quem me levou para o Guinga. Curti principalmente o disco Simbioses. Quando caí na música brasileira, percebi uma certa semelhança com a de Bill Evans. Habituei-me a ouvir melodias ricas e daí caí na música brasileira graças ao Guinga. Dele, passei a conhecer melhor Edu Lobo, Francis Hime, Toninho Horta, Tom Jobim.
Este novo horizonte não quer dizer que Motta está rompendo com os sons que o consagraram. Não estou renegando nenhum tipo de música que fiz. Sempre fui artista de soul e funk, mas isso não quer dizer que não posso fazer outro tipo de trabalho, afirma. A música brasileira vai ser mais um componente - muito rico, diga-se - a integrar meu trabalho. Um trabalho que, para seu autor, descarta marcas e rótulos. As pessoas normalmente confinam os artistas em prateleiras. Esse sujeito é funk, esse é MPB, aquele é clássico. Eu não gostaria de estar em nenhuma prateleira. Quero estar aberto para entrar em todas, avisa. Pode parecer meio pretensioso, mas defino meu trabalho como música de Ed Motta.
Pré-produçãoSobre o novo disco, Ed Motta freia o verbo. Estamos na fase de pré-produção, com muito atividade no estúdio e avaliação do repertório. Prefiro falar sobre este trabalho mais pra frente. O lançamento deve chegar às lojas em maio, pela gravadora MCA. A aproximação com uma sonoridade brasileira se fará presente, temperando o tradicional mix de soul e funk do artista. A produção será do Liminha e deve soar mais pop, voltada ao som que eu fazia no início da carreira. Será uma coisa mais acessível.
O único detalhe que ele deixa escapar é que todas as composições serão de sua autoria, incluindo uma regravação para Falso Milagre do Amor, integrante da trilha sonora do filme Pequeno Dicionário Amoroso. Esta composição pode servir como um bom exemplo para a nova postura de Motta, mais eclética. Fiz essa música no começo do ano passado. Iniciou como uma valsa, depois resolvi transformá-la num funk. Uma mistura de valsa, soul e funk. É como se Henry Mancini chamasse Ari Barroso para tomar um chope num botequim da Tijuca, onde se toca muito funk.
Se ainda não abriu todas as comportas musicais que seu talento pode explorar, como mostra a recente descoberta da MPB, Ed Motta, aos 25 anos, diz que sua carreira está longe de lhe oferecer uma estabilidade financeira. Não tenho nem casa própria. Mas, no fundo, estou bem. Viajo, vou a bons restaurantes - a culinária é uma das minhas paixões - bebo meus vinhos. A vida é isso também: viver. Não tenho muito delírio de dinheiro. Se morrer daqui a 15 minutos vão dizer: Esse cara aproveitou. Gasto tudo, faço tudo, falo o que quero. Não tem problemas se ficar tudo travado na garganta, quando for embora, vou bem.
Esta ótica não quer dizer nenhuma postura zen. De zen não tenho nada. A felicidade é um privilégio dos burros. Essa alegria, esse negócio de zen, esse lado que tem muito no Brasil eu não suporto. Adoro gente mal-humorada, com dor no fígado, crítica, chata. Detesto ficar relaxado. Gosto de ficar tenso, grilado, paranóico. Isso é que é bom, diz. Woody Allen, louco, cheio de problemas, isso é a coisa mais espetacular, estimulante intelectualmente. Eu sou um cara bonachão, gosto das pessoas, de conversar com todo mundo, mas essa coisa do bem-estar, do vamos relaxar, cair na água, eu não aguento.
A banda que acompanha Motta neste show em Curitiba traz a mesma formação que já vem tocando com ele há mais de dois anos: Délia Fisher (piano), João Castilho (Guitarra), Ciro Cruz (baixo) e Renato Massa (bateria). O repertório é definido pelo cantor como um apanhado dos seus três discos.
Show com Ed Motta e banda. Hoje, à meia-noite e meia, no Aeroanta (R. Piquiri, 289 - Fone: 233-5134). Ingressos a R$ 15,00.


