Mestre do samba reverenciado
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Nelson Sato 
O centenário de nascimento de Cartola (1908-1980) foi devidamente lembrado no ano passado? Há quem ache que sim, há quem ache que não. Opiniões à parte, todos terão a chance de celebrar o talento do compositor carioca com a exibição de dois documentários pela televisão: um vai ao ar hoje, às 19 horas, pelo canal GNT e o outro no próximo domingo (dia 22), às 20 horas, pela TV Cultura.
O de hoje é o documentário Cartola Música para os Olhos, rodado pelos pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. O filme, lançado em 2007, reconstrói a trajetória do músico paralelamente à história do samba no Brasil apoiando-se numa variada gama de recursos que reúne desde imagens de arquivo do artista a trechos de filmes nacionais e inserção de sequências ficcionais.
O formato é de mosaico, de linguagem fragmentada, não de uma narrativa linear e didática. Inclui entrevistas e depoimentos de sambistas como Ismael Silva, João da Baiana, Donga, Nélson Cavaquinho, Zé Kéti, Carlos Cachaça e outros mestres. Lembra que Cartola fundou, deu nome e escolheu as cores da escola de samba Estação Primeira da Mangueira.
Ao reconstituir a percurso do biografado, remonta às décadas de 40 e 50, período em que ele afastou-se do universo do samba. Para ilustrar essa passagem, os diretores escurecem a tela deixando apenas o som em off dos depoimentos. Já a fase da retomada da carreira mostra o compositor de bem com a vida, na comissão de frente da Mangueira, em rodas de samba, como ator do filme Ganga Zumba, em aparições na TV, passeando pelo bairro da Lapa ou cantando para Dona Zica.
É célebre o episódio em que o jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) o encontra lavando carros em Ipanema. Mais famoso cronista da época, Porto decide arrancá-lo do ostracismo redirecionando-o para o mundo da música. Foi a época em que o autor de As Rosas Não Falam e O Mundo é um Moinho abriu, com a esposa, o mitológico bar Zicartola, no Centro do Rio de Janeiro. Um ponto de encontro dos bambas do samba onde Paulinho da Viola (que Cartola considerava seu discípulo) fez sua primeira apresentação.
A década seguinte, por sua vez, seria marcada pela primeira gravação do artista: em 1974, aos 66 anos, ele finalmente entra em estúdio para registrar seu primeiro disco como cantor e compositor. Ao ser lançado, o álbum obtém enorme sucesso de público e crítica. Quando morre de um câncer, em 1980, Cartola já está consagrado como o maior sambista brasileiro.
Na TV Cultura, o tributo vai ao ar como um especial do programa Mosaicos. Intitulado A Arte de Cartola, o documentário mistura imagens de arquivo com gravações inéditas trazendo participações de artistas como Leci Brandão, Dudu Nobre, Teresa Cristina, Miguel dos Anjos e da pesquisadora e biógrafa Marília Trindade Barboza.
Do acervo da própria emissora, a produção recupera diversas participações do homenageado em programas históricos como MPB Especial (1973 e 1974), Panorama (1976), MPB Histórias (TV Tupi, 1976) e Vox Populi (1979). E ainda apresenta cenas do filme Ganga Zumba, dirigido pelo cineasta Cacá Diegues, em 1964, no qual Cartola aparece como ator.
Nunca é demais reverenciar o mestre do samba melancólico.


