Um personagem que nada tem a ver com o terremoto de denúncias que abala a Câmara de Vereadores de Londrina, será o principal protagonista da solenidade programada para hoje à noite no Legislativo Municipal.
Aos 80 anos, o paulistano Paulo Menten receberá o título de ''Cidadão Honorário de Londrina'' por sua contribuição à arte e cultura da cidade. A autora da iniciativa é a vereadora Mariângela Santini (PT). A homenagem será às 20 horas.
''É engraçado, parece que Londrina me adotou. Fui incorporado à cidade, onde cheguei em 1982 atrás de vida nova'', diz o artista, com a voz baixa e enfrentando problemas de audição. Não é a primeira vez que os poderes públicos locais prestigiam o artista.
No ano passado, ele foi escolhido para ilustrar os totens do Memorial do Pioneiro, construído em frente à Concha Acústica. Ao lado da mulher e também artista, Dolores Branco, Mentem tem desenvolvido atividades ligadas à gravura, da qual é considerado um mestre pelos pares.
Pelo terceiro ano consecutivo, o casal ministra uma oficina de xilogravura no Museu de Arte. Na última sexta-feira, inauguraram uma exposição no Espaço Cultural Berimbau da Cidadania reunindo trabalhos produzidos pelos alunos do curso ao longo de 2007. Dessa mesma turma, 25 crianças tiveram seus trabalhos selecionados para uma exposição itinerante na cidade de Ishinomiya, no Japão.
''A maioria das crianças vêm da periferia revelando um potencial latente que precisa ser transformado em cultura enraizada na cidade. Esse potencial é o que existe de melhor, em termos culturais, em Londrina. O que existe de pior é o espírito provinciano, a submissão à globalização imposta e à cultura do espetáculo'', salienta ele.
Para Mentem, Londrina já viveu momentos mais estimulantes na área das artes visuais. ''Houve época em que a Letícia Faria aglutinou um bom número de artistas atuantes'', ressalta. ''Hoje parece que o pessoal está em recesso. As pessoas não se ligam, não se reúnem, não se integram. As atividades são estanques. Os escritores não conversam com os pintores, os músicos não conversam com o pessoal de teatro, ficaram todos encastelados. É preciso haver confrontação de criatividades e não de personalidades.''
Para seu metiê, ele sonha com a criação de um núcleo de gravadores para que eles possam trabalhar e imprimir livremente. Vê as oficinas realizadas no Museu como um embrião da idéia. ''Nossas oficinas são feitas sob os Arcos, às vezes enfrentando chuva e vento. Mesmo assim, temos observado coisas extraordinárias produzidas pelos aprendizes. Além disso, há um grupo de gravadores aqui que não se vê em outras cidades de mesmo porte'', assinala.
Gravador e pintor, Menten surpreendeu os amigos três anos atrás ao publicar o livro de poemas ''Diário de Bordo Inseguro''. Agora prepara um outro volume. ''Serão poemas sobre o mar'', anuncia, sem adiantar data de lançamento. Nascido em São Paulo em 17 de junho de 1927, Menten começou a pintar aos 16 anos de idade. Autodidata, aprimorou conhecimentos e técnicas frequentando cursos livres de Lívio Abramo (1903-1992) no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Como artista, foi alvo de perseguição política durante o regime militar. Em 1966, dois anos após o Golpe, teve suas obras confiscadas durante uma exposição na 2 Bienal de Gravura de Salvador (BA). Dez anos depois decidiu viver exclusivamente de arte, deixando o emprego no Banco do Comércio e Indústria de São Paulo (Comind), onde trabalhou durante 19 anos.
Ele não sabe dizer com precisão porque trocou a capital paulista pelo Paraná, mas lembra que antes de se estabelecer em Londrina, morou dois anos em Cornélio Procópio. Aqui, ao longo de duas décadas, formou incontáveis artistas em seu ateliê. Provavelmente, alguns deles estarão hoje à noite na Câmara aplaudindo a homenagem ao mestre.

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