Ele não é Indiana Jones. Mas para os efeitos da multidão idólatra, é como se fosse. Em Cannes, na interminável sessão de fotos, na superlotada coletiva de imprensa ou na trés chic subida de gala da escadaria do Palais, sempre ao lado de sua mais recente musa, a rotunda e belíssima Angelina Jolie, Clint Eastwood preenche por inteiro as retinas. Do herói sem nome dos spaghetti western de seu primeiro mestre, Sergio Leone, a diretor consagrado de filmes já incorporados à história do cinema, uma carreira feita de muitos personagens, na maioria policiais ou cowboys. Mas nada convencional: sempre o toque da transgressão, a novidade do insólito a moldar um surpreendente carisma na contramão do bom-mocismo. E uma sagaz combinação de sensibilidade e inteligência, de coração e cabeça por trás das câmeras.

Elegante, muito cortês e paciente, este senhor republicano que julgou as enfermidades dos Estados Unidos melhor que qualquer progressista recebeu a mim e a quatro outros jornalistas da América Latina para uma entrevista no Hotel Carlton, no coração da Croisette, a avenida beira-mar de Cannes. A conversa transcorreu dias depois da exibição de seu filme ''Changelling'', história baseada em fatos reais ocorridos em Los Angeles em 1928, sobre a obstinação de uma mãe em busca do filho de nove anos desaparecido e sobre um serial killer que matou mais de 20 garotos naquela faixa etária.
A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Sr. é o melhor exemplo de um realizador que fez seus melhores filmes depois dos 65 anos. Como se explica esta longevidade, e com tal índice de produtividade e aproveitamento ?

Hoje sei mais sobre o ofício de dirigir do que sabia há 20 anos. Mesmo que você considere isto um clichê. Nunca deixei de pensar que tinha mais e mais coisas a aprender, sempre. Tanto é verdade que não tenho qualquer razão para parar de filmar. No final de suas carreiras, alguns diretores dos anos 1940, como Alfred Hitchcock, Raoul Walsh e Howard Hawks, refilmaram alguns de seus maiores sucessos. Isto não farei nunca. Prefiro encarar uma onda nova do que surfar em cima da mesma...

O seu exemplo é o de um artista, de um criador que parece estar permanentemente questionando seus limites, indo mais além em busca da superação de seu potencial. Seria por isto que seu filme mais recente parece sempre melhor que o anterior ?
Bem, não sei quanto a isto. Mas uma coisa é certa: quando você é um artista e morre prematuramente, você está roubando o seu público. Não quero me comparar a artistas que desapareceram muito cedo, como o Charlie Parker que retratei em ''Bird'' e que ficou muito aquém de seu potencial. Houve dois momentos em que pensei em parar: em 1992, com ''Os Imperdoáveis'', e em 1995 depois de ''As Pontes de Madison''. Disse a mim mesmo: é um bom momento para cultivar meu jardim e beber um bom vinho. Mas esta idéia passou apenas rapidamente pelo meu espírito. Eu não teria tido outras experiências formidáveis, como fazer, por exemplo, ''A Conquista da Honra'', ou dirigido um filme em japonês como ''Cartas de Iwojima''.

O Sr. parece nunca querer estar na moda, buscar temas que estão na mídia.
Com toda certeza que não ! Confio nos meus instintos. Se meu filme não faz sucesso, o que fazer ? Trabalho há 50 anos numa indústria que segue os modismos. Detesto ser um seguidor. Quando cheguei a Hollywood, me garantiram que não tinha nenhum futuro. Os filmes que marcaram uma guinada na minha carreira não estavam de acordo com o gosto do momento, a começar com ''Por Um Punhado de Dólares'', de Sergio Leone. Ninguém mais acreditava no western. Quando penso em ''Menina de Ouro'' e nas dificuldades que enfrentei ! Todo mundo me dizia quais os filmes que agradariam ao público. Quando propus o roteiro à Warner que até então tinha produzido quase todos os meus filmes, eles me disseram: 'Mas que péssima ideia, um filme de boxe com uma mulher no ringue'. Eu respondi : Não é um filme de boxe, é uma história de amor entre um pai que jamais conheceu a filha e uma filha que jamais conheceu seu pai. Por coincidência este drama se passa numa academia de boxe...

O argumento de ''Changelling'' lida basicamente com a busca da verdade. O personagem real de Angelina Jolie de certa forma reedita aquelas tendências de ''vigilante'' que o Sr. trazia na pele do policial justiceiro na série Dirty Harry, realizada nos anos 70 e 80.
É, de fato, lá nos anos 20 ela, Christine Collins, surge como alguém capaz de lutar sozinha e vencer um sistema corrupto, primeiro justificando suas ações porque quer o filho de volta, mas depois sabendo que pode ajudar a mudar as coisas. E é isto o que ocorre. Histórias reais têm intrigas muito mais complexas, conflitantes e irresolvidas do que a ficção. E é isto o que mais me interessa.

''Changelling'' é seu quinto filme em competição no Festival de Cannes depois de ''O Cavaleiro Solitário'' (1985), ''Bird'' (88), ''Coração de Caçador'' (90) e ''Sobre Meninos e Lobos''(2003). O Sr. nunca recebeu nenhum prêmio, a não ser o de interpretação para Forest Whitaker em ''Bird''. Quais suas expectativas para este ano ?
Fui presidente do júri em 1994, ano em que ''Pulp Fiction'' recebeu a Palma, sei bem como funcionam as coisas. Claro, membros do júri têm opiniões diferentes, e há duas dezenas de filmes em competição. ''Sobre Meninos e Lobos'' foi muito bem recebido há cinco anos, e isto para mim foi suficiente. A questão dos prêmios é secundária. Se houver algum, tanto melhor. Mas quem sou eu para pretender que meu filme seja melhor ? Se o público for ver o filme, e gostar dele, e colocar uma ou duas questões a respeito, isto não será nada mal.

E seu próximo projeto ?
Um pequeno filme, começando a rodar já a partir de julho. Chama-se ''Gran Torino'', e é sobre um veterano da guerra da Coréia em Michigan, um descendente de poloneses que não consegue se adaptar ao mundo moderno. Vou interpretar o papel principal. E no início de 2009 quero filmar uma biografia de Nelson Mandela que relata os anos que separam sua saída da prisão de sua eleição para presidente da África do Sul.

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