A partir de um não-lugar, que por acaso é Paraty, o escritor Lucius de Mello, chegou a personagens, objetos do ciúme sensual, infiéis ao leitor, que ficará em dúvida se foi traído ou não por eles até a última página do livro ''Mestiços da Casa Velha'' (Novo Século, 406 páginas).
Residentes de um mundo impalpável e feitos da mesma alma, antes de desabarem em precipícios de ironia, os personagens fazem os caminhos sinuosos das sutilezas psicológicas. Depois, só lhes resta cair no mar que, no texto absolutamente cinematográfico de Mello vem, com a ressaca, devolvê-los à literatura, através do livro inspirado em Bentinho, da obra-prima ''Dom Casmurro'', de Machado de Assis.
O lançamento do livro do escritor paulista oportunamente acontece no ano do centenário da morte de Machado, data celebrada amanhã. Mello foi finalista do Prêmio Jabuti 2003, com ''Eny e o Grande Bordel Brasileiro'' (Objetiva).
Ao mesmo tempo em que o Bentinho de ''Mestiços da Casa Velha'' é um bonde que faz os personagens voltarem à solidão, amor, desejos e ódios inconfessáveis, também é um encontro entre a ironia machadiana e a imaginação psicológica do escritor alemão Thomas Mann.
O mar, como antecipa o primeiro capítulo do livro, é o único mundo capaz de dar abrigo aos personagens de Mello. Foi justamente pelas águas que um Bentinho da vida real, que também inspirou o autor, partiu, levando o escritor a querer buscar o rapaz para contar-lhe sobre a obra, que nasceu de um encontro casual, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2004).
''Produzia uma reportagem na Flip para o Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho. Um dia à tarde, eu e a minha editora estávamos num bar na praça da matriz. Esse Bentinho chegou e sentou-se na mesa ao lado. Ele era negro e vi ali uma personificação de Machado de Assis. Ele disse que era professor de Português. Depois de uns 40 minutos de conversa, o rapaz falou que teria que ir para a rodoviária pegar um ônibus até Angra dos Reis, depois um barco para ir às ilhas onde dava aulas'', lembra Mello, que nunca mais encontrou Bentinho, afirmando que gostaria de revê-lo para contar que o encontro inspirou o livro.
O mar que levou o professor Bentinho deixou o da ficção. Uma ressaca que também trouxe Lili. Uma mulher de Paris, que funciona na obra como o arquétipo da literatura francesa que se rende ao machadianismo. A própria personagem diz, no livro, ser uma mina de esmeralda em estado líquido - metáfora do vício em absinto, que insiste em lhe beijar a boca.
Ao contrário das amigas, que queriam aprender alemão ou inglês, na adolescência, Lili quis conhecer o idioma português, tendo como professora uma judia, que ensinou a língua através do livro ''Dom Casmurro''. ''A menina se apaixonou por Bentinho, odiando Capitu. Lili cresce e se forma em Pedagogia, tornando-se uma mulher amarga, que não se casa, esquecendo também a paixão juvenil. Aos 50 anos, ela resolve se mudar para Paraty. Um dia, a empregada, Laura, uma mãe-de-santo, apresenta o filho de sete anos, Bentinho. Lili se torna sua protetora, fazendo dele um professor de Português'', conta Mello.
Objetos do ciúme sensual, os personagens de Mello são ambivalentes como Ondina, uma pescadora de Paraty, por quem Bentinho se apaixona e de quem o ódio juvenil de Lili tentará arrancar os olhos. O ciúme também está na relação obtusa entre o ex-juiz Antônio Joaquim, que queria ser um sucesso literário e Gustavo Zauber, um jovem e bonito professor de História. Os dois vivem uma relação na casa que foi de Júlia Mann, mãe do Prêmio Nobel de Literatura, e que existe até hoje ao lado da marina de Paraty. Antonio é obcecado pela obra do escritor alemão, acreditando que a casa irá levá-lo à mente de Mann. Mais do que um amor que não ousa dizer o nome, a relação esconde outros mistérios.
Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), atualmente, Mello é redator do programa ''Hoje em Dia'', da Record, tendo sido repórter da Rede Globo por 14 anos. Seu livro anterior ''Eny'' está sendo adaptado para cinema e televisão pela Casablanca Filmes.

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