Mesmo ruim, 'Sexta Feira 13' fatura alto
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
A (re) filmagem de ''Sexta-Feira 13'' ocorreu entre abril e junho do ano passado, portanto alguns meses antes do desastre econômico que deixou Tio Sam de tanga tocando violino no metrô de Nova York à cata de uns trocados. O filme custou apenas U$ 16 milhões de dólares, e já emplacou até ontem U$ 45 milhões. No Brasil o resultado, embora satisfatório para distribuidores e exibidores, foi bem mais modesto: R$ 912 mil no fim de semana.
Rindo à toa, e seguindo a escrita proverbial de que a desgraça de uns é o bem de outros, o produtor Michael Bay e o diretor Marcus Nispel, a mesma dupla de outros dois recentes remakes B - ''O Massacre da Serra Elétrica'' e ''Terror em Silent Hill'' - acabaram beneficiados com a quebradeira geral que continua sangrando o país muito mais do que o sádico personagem Jason Vorhees, este redivivo assassino em série.
É histórico: lobisomens, múmias, vampiros, frankensteins, sociopatas, psicopatas, maníacos, alienígenas e criaturas monstruosas em geral sempre fazem a festa em sociedades fragilizadas financeira e socialmente. Foi assim na Alemanha esfacelada no pós-guerra da década de 1920, onde floresceu o Expressionismo e suas criaturas e formas destorcidas e sombrias. Foi assim com a Grande Depressão, ou a crise de 1929 nos EUA na avenida da amargura, que deu origem a grandes clássicos como ''Drácula'', ''Frankenstein'' e ''King Kong''.
O processo é simples e funciona psicológicamente muito bem. Do lado de fora das salas, o pesadelo do desemprego consumado ou ameaçador, a sombra da recessão que esmaga o consumo e aperta cintos, a iminência de dias e noites de penúria. Do lado de dentro, a fórmula mágica e encantatória da ilusão onírica atuando como sedação, como tática diversionista, como anestésico, como literal e simbólico escapismo. O mal criado pela ficção terapêutica torna mais suportável o terror. É a mais aceitável distorção virtual na tela, como atenuante dos efeitos reais e devastadores causados pelas tramóias de Wall Street.
Bem, e afinal pobre Jason, o vingador pela infância atormentada. Quer dizer, não há como ter pena desse mascarado que estripou dezenas a golpes de artefatos diversos. Mas a seu favor pelo menos é obrigatório dizer que, de tanto espremê-lo, o deixaram dessecado. São quase 30 anos desde a estréia com o homônimo ''Sexta-Feira 13'', passando por quase uma dezena de sequelas, e todavia o remetem à sua gênese de 1980. Há quem sustente, sem meu endosso, que aquele começo com Pamela Voorhes, a mãe do personagem no centro da trama, foi inovador e se tornou um clássico do gênero. Então, pela lógica mais cartesiana, se tudo se repete agora, três décadas depois, de vanguarda atingimos a retaguarda.
Naquela região maldita de Crystal Lake, um grupo de jovens mochileiros toma cerveja, puxa um fumo e faz sexo muito à vontade. Até que surge Jason e os converte em cortes diversos, populares ou sofisticados, destinados à vitrine de açougue. Por mera casualidade, o carniceiro destrincha principalmente aqueles que o roteiro rotulou como transgressores da moral e dos bons costumes - pelo que se vê, o conceito que os realizadores fazem dos jovens ianques não mudou nada nestes 30 anos. Entre as vítimas há um jovem ricaço e o irmão de uma garota desaparecida. Ia me esquecendo: antes deste grupo há um outro, triturado logo de saída em sequência que tenta homenagear aquele estilo do original anos oitenta dirigido por Sean S. Cunninghan.
Como sangue e sadismo como matéria bruta são a oferta do filme, de resto a mesma de todos os títulos anteriores, e como o freak Jason aparece de novo como o manjado exterminador do passado, presente e futuro - todas as minhas fichas na mesa apostadas em outra sequela -, o filme é pura repetição, desde as perseguições até as execuções, passando por...mais execuções.


