Mesmo de passagem, coma e beba bem em Veneza
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de outubro de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha Turismo 
Entre os inconvenientes causados pela predominante indústria mundial do turismo massificado, um dos mais frequentes e torturantes é comer mal e sempre com muita pressa. Destino Europa, por exemplo, através de pacotes diversos. Está cada vez mais difícil o viajante sentar com calma num restaurante e degustar as delícias típicas dos países visitados, sem que acabe comendo coisas duvidosas e pagando por elas uma exorbitância. Uma, porque o tempo de permanência em cada cidade, em média, não passa de 48 horas. E outra porque, mesmo com as previstas manhãs ou noites livres, o desgaste provocado pela maratona atrás das milenares novidades - ou pelo desenfreado ímpeto comprista - transforma a fome em algo a ser saciado na primeira esquina. Ou por um caro e insosso espagueti ao molho qualquer, ou pelo antisséptico e globalizado big mac.
ReproduçãoCapa do folheto da AssociazioneNo primeiro caso, obviamente italiano, a coisa é mais complicada. Especificamente em Veneza, um dos objetos de desejo turístico mais cobiçados no mundo, a situação do tal espagueti despersonalizado se generalizou. Virou incômoda rotina para os puristas da tradicional e autêntica gastronomia vêneta, ludibriados por inescrupulosos conterrâneos. E se transformou numa espécie de símbolo de tudo o que o amante da boa mesa deve evitar. O turista acidental é hoje vítima de uma indústria veneziana mata-fome, que prolifera em cenários kitsch às margens do Canal Grande, a principal via que corta a cidade. A pasta não convence, o fruto do mar está a implorar severas reservas e o vinho, bem, o vinho quando muito é sofrível, o que no mínimo é golpe fatal para quem produz o que Baco tomaria sem pestanejar.
Veneza tem uma tradição gastronômica que remonta a séculos, legada pelo mar e por seus produtos, também originários das 118 ilhas da laguna veneziana. É natural que qualquer um que chegue à cidade, ainda que sem maiores informações, queira conhecer simultaneamente monumentos e pratos tradicionais. Como esta combinação, que deveria ser natural, tornou-se singular, quase uma extravagância, um grupo de autênticos ristoratori - ou donos de restaurantes - decidiu resgatar o bom nome do setor.
Há cerca de cinco anos - fração mínima de tempo, para quem tem história desde o ano 568 da era cristã - foi criada a Associazione dei Ristoranti della Buona Accoglienza. A idéia-base: divulgar alguns locais onde a cozinha não é somente um fato comercial, mas parte integrante da vida e da cultura de Veneza. Restaurantes, vale dizer, que à antiga tradição da gastronomia vêneta associaram a atmosfera cordial e acolhedora para que seus frequentadores gozassem os prazeres da boa mesa.
Até o momento são 14 endereços que aderiram a Associazione, todos comprometidos e empenhados em cumprir e fazer cumprir os cinco mandamentos originalmente aprovados: garantir a máxima transparência dos preços; escolher cuidadosamente os produtos na cozinha, detalhando a exata tipologia; respeitar a justa relação entre qualidade oferecida e preço cobrado; apresentar vasta possibilidade de escolha entre as diversas variedades de azeite de oliva extravirgem, de vinagres e queijos; e manter uma carta de vinhos qualificada e articulada com relação às características locais.
Outra especialidade, não impressa mas calorosamente detectada, é o atendimento. No restaurante Corte Sconta, quem recebe pessoalmente é o casal de proprietários, Claudio e Rita. É rigorosamente impossível não se render à simpatia da dupla e ao irresistível antepasto de frutos do mar - especialidade: carne de siri sobre cubos de polenta frita - seguido de nhoque ao molho de vôngole al pomodori suave. Acompanha o branco seco da casa, de arrepiar.
A maioria dos restaurantes associados está localizada próximo a Piazza San Marco, e podem ser localizados com certa facilidade através de um folheto distribuído nos escritórios de informação turística. Além do endereço, constam número do telefone (é bom fazer reserva), fax, dias de fechamento e preços médios por pessoa ( máximo de 65, mínimo de 40 dólares). Para o caso de querer sair do Brasil prevenido, pode-se solicitar via fax para 0039415285521, ou pela Casela Postale n. 624 -30.100 Venezia.


