Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Um encontro com Meryl Streep não deixa ninguém indiferente. Em especial quando se descobre por trás da maior atriz americana dos últimos 20 anos – dois Oscar, onze nominações – uma mulher com luminosa naturalidade e discreta elegância, de humor excelente, sempre pronta ao sorriso e a animadas
revelações sobre uma ‘‘vida hiperagitada’’. No Festival de Veneza, no início do mês, para apresentar em mostra paralela seu mais recente trabalho no filme de Wes Craven, ‘‘Music of the Heart’’ (ainda sem data de lançamento no Brasil), Meryl não foi reticente ou econômica nas respostas.
E muito menos pareceu preocupada com privacidade, falando tranquilamente sobre o casamento de duas décadas com o mesmo marido, o escultor Don Gummer, e os quatro filhos, entre 20 e 8 anos. Ela não escondeu o entusiasmo pelo papel no filme de Craven, o de uma professora de violino determinada que enfrenta o descaso e a falta de recursos para continuar ensinando música para crianças, no East Harlem de Nova York.
Personagem, de resto, à imagem e semelhança de dezenas que Meryl já viveu na tela. A seguir os principais trechos da entrevista que a atriz concedeu à Folha2, na suíte 426 do Hotel Excelsior, no Lido.
Não lhe parece estranho que um diretor famoso por filmes de horror como Wes Craven, que coleciona no currículo títulos como ‘‘A Hora do Pesadelo’’ e ‘‘Pânico’’, tenha optado por contar a história edificante de uma professora de violino num escola pública do Harlem?
No início recusei a proposta. Detesto filmes de terror porque levo tudo a sério. Também nunca vi qualquer filme de Wes. Mas depois ele me escreveu uma cartinha comovente. Me explicou que por muito tempo tinha sido professor, que para chegar ao sucesso tinha empenhado vinte anos e que este era o filme da vida dele. Minha mãe foi professora e meu irmão ainda leciona em Nova York. Senti a paixão dele pelas crianças e a fiz minha.
Neste filme, ‘‘Music of the Heart’’, você interpreta Roberta Guaspari, professora que existe de fato e ensina música Nova York. Como foi compor este personagem?
Passei alguns dias observando a Roberta de verdade. Para minha sorte, tenho a capacidade de ‘‘estenografar’’ com a mente hábitos e detalhes das pessoas, reproduzindo-os depois diante da câmera. Não faço mais nada, não tenho tempo. Não sou Jack Nicholson, que pôde dedicar-se inteiramente à carreira. Sou uma mulher ocupada, dona de casa, com filhos...(risos)
E o violino, já sabia tocar antes? Qual a sua relação com a música?
Não, nunca toquei qualquer instrumento. Tive que aprender. Quatro horas de lição ao dia, trancada na minha garagem por sete semanas. Quanto à música, me agrada tudo, ouço jazz e música clássica, vou a concertos de rock. Meu filho mais velho, que vai fazer 20 anos em novembro, toca guitarra. E entre as filhas, uma canta, a outra toca guitarra e canta e a caçula, com oito anos, deve começar a estudar piano.
É verdade que, depois do filme, Roberta Guaspari conseguiu os recursos para manter o curso de música?
Sim, é verdade. Todos os políticos de Nova York foram ao set no Carnegie Hall. Depois fizeram moções, emendas, levantaram o dinheiro. Mas este episódio me fez ainda mais cética no confronto com a classe política. Como é possível considerar o ensino da arte nas escolas menos necessário que o computador?
Na tela você é uma expert em provocar comoção e lágrimas. Mas sabe também provocar o riso, quando o roteiro lhe permite. Não agradaria a você fazer o público rir com mais frequência?
Muitíssimo, mas papéis cômicos para atrizes com a minha idade são em geral grotescos, desagradáveis. Mas tão logo eu consiga uma boa história para rir eu a farei. Uma outra razão que também não me faz encontrar comédias é que já não tenho mais tanta vontade de interpretar como antigamente. Agora quero só argumentos que me toquem o coração e o coração das pessoas comuns. Meus próximos filmes, por exemplo. Pela primeira vez vou produzir e interpretar: é a história real de uma policial de Nova York, Cathy Burke, condecorada diversas vezes por bravura. No outro, Michael Douglas e eu seremos um casal que, depois da morte da filha, tem que cuidar dos netos. Este deve levar mais tempo para começar, porque Michael é muito resistente para fazer um avô...
Em quais filmes você foi mais você mesma?
Em todos. Sempre escolhi papéis com os quais pude falar de mulheres normais.
À exceção dos personagens tipo dark-lady, que concordei em interpretar mas com os quais não me identifico, nos outros sempre coloquei minhas emoções.
Como você vê o cinema, e mais especificamente, a atriz já no início do próximo século 21?
O cinema está mudando. Até há pouco se questionava o poder masculino exagerado e os poucos papéis femininos de relevância. A situação hoje já é outra. Personagens novos e muito interessantes estão surgindo para as mulheres. O cinema passará a se preocupar com suas novas formas de uso televisivo ou via computador. Vai ser muito excitante participar de tudo isso.A atriz fala de seu último filme, da carreira e de outros assuntos em entrevista exclusiva à Folha2
ReproduçãoMeryl Streep: ‘‘Agora só quero argumentos que toquem meu coração e o coração das pessoas’’DivulgaçãoEm seu novo filme, Meryl Streep faz o papel de uma professora de violino. Personagem foi baseado na vida de Roberta Guaspari (abaixo), que ensina música para crianças em Nova York

mockup