Meryl Streep é a alma de "Música do Coração"; interpretação rendeu sua indicação ao Oscar16/Mar, 15:07 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 16 (AE) - Começa como um filme de terror. Meryl Streep, os cabelos desgrenhados, gritando com os filhos e os carregadores da mudança, expressa na tela o desequilíbrio da mulher que acaba de perder o marido para outra. Parece perfeito para um filme de Wes Craven, cineasta cujo currículo aponta para grandes sucessos do cinema de terror. Iniciou a série "A Hora do Pesadelo", fez "Pânico" (1, 2 e 3). Logo em seguida, "Música do Coração" muda o tom e o estilo. Craven aderiu ao drama lacrimoso. Vai ser difícil ver "Música do Coração" até o fim sem verter copiosas lágrimas. Mais um filme para chorar no Oscar 2000. O melhor de "Música do Coração" é a presença de Meryl Streep. Com sua excelência, Meryl de certa forma banalizou o conceito de boa interpretação e até a indicação para o prêmio da academia. Mas até Meryl Streep consegue superar-se. Em "Música do Coração", ela oferece sua interpretação mais impecável dos últimos tempos e, desta vez, sem sotaque algum. E pensar que Craven, inicialmente, quase fez o filme com Madonna. Não seria a mesma coisa, com certeza. É uma história real. Quer dizer, uma história real contada por Hollywood, o que significa que "Música do Coração" ficcionaliza a experiência de Roberta Guaspari para retirar dela o seu aspecto mais edificante. Uma mulher dá a volta por cima, supera os próprios limites e cria um projeto vitorioso para sua vida - um projeto que também é comunitário. No princípio, é uma mulher assustada, que teme assumir as rédeas da própria vida, depois de anos vivendo à sombra do marido. Não por acaso, o filme começa com uma mudança. A mudança de casa será acompanhada pela mudança de vida. Impulsionada por um amigo que logo vira namorado, mas não tem estrutura para acompanhá-la (Aidan Quinn), Roberta vai trabalhar numa escola barra-pesada de Nova York. Sua especialidade é o violino e ela vai dar aulas de iniciação musical para crianças carentes. Para isso, precisa vencer todo tipo de preconceito. Do coordenador do departamento ao dos pais de algumas das crianças. A mãe de uma delas não vê utilidade em ensinar para o filho afro-americano a grande música dos brancos. Sem música, você já viu esse filme várias vezes. A história do professor (ou professora) que luta para colocar alunos relapsos nos eixos é um tema tradicional de Hollywood. Glenn Ford (em Sementes da Violência, de Richard Brooks), Sidney Poitier (em Ao Mestre com Carinho, de James Clavell), Sandy Dennis (em Subindo por onde Se Desce, de Robert Mulligan), todos seguiram essa trilha. Até Michelle Pfeiffer arriscou-se no gênero em "Mentes Perigosas". A novidade aqui é a música. Como em "A Escolha de Sofia", de Alan J. Pakula, que lhe valeu o Oscar, Meryl Streep é a própria razão de ser do filme. Mas não se pode dizer que Wes Craven não leve a bom termo sua proposta de emocionar, mesmo carregando na pastosidade dos sentimentos. O filme é longo. Quando parece que vai terminar, surge um letreiro - dez anos depois - e a história recomeça. Há momentos, porém, em que o drama deixa de ser só lacrimogêneo. A cena de Roberta/Meryl no palco do Carnergie Hall com Isaac Stern roça o sublime. Quando ele lhe diz que é possível perceber ali a presença de Tchaikovski ouve-se, mais que a música do coração, o amor da música.

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