Mergulho sensível no passado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de agosto de 2000
Benedicto Kubrusly Junior De Curitiba Especial para a Folha 2 
O filme Buena Vista Social, em cartaz na Cinemateca de Curitiba, é simplesmente arrebatador. Sutilmente vai envolvendo o espectador num misto de sons, histórias e músicas que brotam do melhor que a alma humana é capaz de criar. Irresistível para quem possui, no mínimo, uma célula de paixão. Mais do que tudo, pela mais pura e louca perseverança de um homem - Ry Corder - que um dia sonhou um sonho impossível. E, pasmem, conseguiu realizá-lo. Sonhou conseguir reunir os melhores músicos de Cuba que, num daqueles inexplicáveis espasmos da natureza, nasceram num mesmo país, numa mesma geração. E fizeram história, criaram ou interpretaram como ninguém mais antes ou depois deles, o melhor da música cubana. Isto tudo, acontecia todas as noites em um bar chamado Buena Vista Social Club, na década de 50. Repito, década de 50!
Por favor, antes de continuar, procure transportar-se para aquela época. Cuba com seus cassinos, com o seu desfile de carros rabos de peixe, seus shows monumentais, era o quintal dos yankes milionários. Época em que dois jovens loucos e maltrapilhos refugiaram-se na Serra Maestra com um bando de outros maltrapilhos, de posse apenas de um ideal: derrubar o governo de Fulgêncio Batista e instituir um regime revolucionário. Hoje, aquele regime moderno transformou-se em referência utópica e carcomida, daqueles jovens, um é parte de uma história distante e o outro, bem, o outro é tratado pelo mundo com o respeito que se trata um bom velhinho, jurássico e demodé.
Imaginem então, hoje, os músicos, os artistas daqueles tempos! Pois bem, o sonhador pesquisou, fuçou e os encontrou. Este filme de Wim Wenders é a realização do sonho de Spielberg: encontrar dinossauros vivos nos dias de hoje. Este filme é a realização do Campo dos Sonhos: reunir os melhores, como se o tempo não existisse. É o ideal do boxe: a luta de Louis x Clay, Lyston x Tyson. Mas sem ficção, em carne e osso.
De situações e de lugares, os mais tristes e desencantados de Cuba, brotam à vida o cantor, que, por amargura, ficou sem cantar por mais de dez anos, que com mais de 90 anos mantinha a voz de veludo de Nat King Cole. O pianista, considerado um dos três melhores pianistas do mundo no seu gênero que, com 85 anos, ficou outros dez anos sem tocar dando a desculpa de que não podia mais graças a artrose. A cantora, encontrada quase numa favela. E outro, e outros todos esquecidos, exilados ou auto-exilados, esperando apenas a morte chegar. Este filme é como se o socorro ao Titanic tivesse chegado a tempo. Só que de verdade: náufragos da vida, resgatados e colocados como que em um delírio no templo sagrado, no Olimpo sonhado por todo o artista: o Carregie Hall que aplaudiu-os de pé, sucessivas vezes, que num frenesi de emoção e de pedidos de bis teimava em não deixar o sonho de um bando de velhinhos acabar.
Existem momentos artísticos neste mundo de Deus que só que tem a sorte de presenciar pode contar e este foi um deles. Por uma confluência de raros fatores, uma apresentação, mesmo depois de muitas vezes repetida, é marcante. Para citar apenas alguns momentos: os três tenores em Caracala, The Doors em Chicago, Janis Joplin e Jimmy Hendrix em Woodstock, The Police no Rio, Pink Floyd em Veneza, nesta última semana, Sófocles no Coliseum, enfim.
Vá ver esse filme. Você vai se emocionar. Esqueça a fantástica e inteligente edição. Esqueça o roteiro bem concatenado. Deixe-se simplesmente levar pela emoção que brota a cada quadro, pois saiba, além de tudo isto o que mais nos toca é perceber que no mundo de verdade, lá em uma ilha no meio do Caribe, aconteceu uma história com happy end.
Mas como toda jóia verdadeiramente preciosa, esta também guarda o segredo da decomposição da luz um pouco abaixo de suas facetas. Para captá-la temos que olhá-la com muita atenção. Desta forma, belas imagens e grandes verdades se revelam. Explico: felizmente este filme, certamente não por acaso, tem uma conotação totalmente apolítica. Mas apesar disto, algumas passagens nos trazem lições e reflexões de vida.
Em uma delas, no depoimento do cantor de 90 anos ele diz que é feliz, que o cubano é feliz por que não se dobrou ao consumo. Contando a sua vida diz que ficou órfão de mãe aos doze anos, de pai já bem antes e que a vida era muito mais dura do que nos dias de hoje. Atenção, nos dias de hoje. Durante todo o filme, algo que permanentemente chama a atenção é o baixíssimo padrão de vida não só dele mas de todas as pessoas que aparecem. São paupérrimos, desdentados, mal vestidos, abandonados, não só pelos seus mas também pelo Estado mas, note o detalhe, são felizes! Pode-se dizer então, é a esclerose de um velho.
Para ficar apenas em mais uma história, o pianista de 85 anos, em um grande salão antigo e meio abandonado toca um piano velho, horroroso, desafinado, para um bando de crianças da faixa de uns seis a doze anos. Neste salão elas treinam ginástica olímpica de solo, barras, cavalos com alça, esgrima, balé. Todas as crianças extremamente maltrapilhas, equipamentos em péssimo estado mas em todas, da pureza universal que só elas possuem, brotava apenas uma coisa: felicidade. Não quero fazer um despropositado elogio à pobreza como fez um ex-ministro, infelizmente do nosso Estado, que nela encontrou lirismo e poesia.
Quero dizer que este povo, o cubano é, no mínimo, diferente. Faz quase quarenta anos - repito, quarenta anos - que esta ilha, que só tem açúcar e charutos, está sendo asfixiada ou, desculpem, embargada. E não se dobra. Acho que nada no mundo deve irritar tanto os Estados Unidos quanto Cuba. E, acreditem-me, quem escreve não é um anti-americano. Nada no mundo, com exceção de Cuba, resistiu ao modelo capitalista que, quando chega e sempre vence, finca imediatamente as suas bandeiras. Nem a população da milenar cultura chinesa, nem a ainda traumatizada cultura japonesa, nem a nunca invadida Tailândia (será?), tampouco a Rússia, a orgulhosa França. Nem o Tibet! Pois bem, Cuba escapou. Povo altivo, orgulhoso, diferente, feliz.
De forma alguma estou defendendo este ou aquele regime político pois, de lá, também milhares de pessoas lançam-se ao mar fugindo em busca de outra vida. Isto tudo é irrelevante para a pergunta que surge: afinal, o que traz a verdadeira felicidade? Certamente não é o dinheiro, os bens materiais, tampouco a segurança da proteção do Estado pois, se assim fosse, não encontraríamos em São Paulo, Paris, Nova York, Estocolmo, Curitba, etc, tantas pessoas desencantadas, suicidas, melancólicas.
Há alguns anos, um tio contou uma fábula muito interessante: o peixinho, irriquieto e curioso com as dúvidas que assolavam o seu espírito nadava e a todos os peixes mais velhos que encontrava fazia a mesma pergunta; afinal, onde seria possível encontrar a tal felicidade? Um dia, sem ainda ter a resposta, depois de ter nadado pelos sete mares, encontrou um peixe velho e sábio e a ele fez a pergunta: O senhor, do alto de toda a sua vida e experiência sabe me dizer onde encontrar a felicidade? E, para o seu espanto e excitação o peixe velho disse: Sim, eu sei onde está a felicidade: está na água...!
Talvez a pura e virgem água de Cuba ou de qualquer outro lugar (se ainda existir) puro e virgem, seja a fonte daquela única coisa que nós, todos nós, no fundo buscamos no caminho da nossa existência.


