Dose generosa de erudição mas sem pedantismo. Esta deve ser a melhor definição de ''Breve, o Pós-humano'', livro de ensaios de Jair Ferreira dos Santos, cuja segunda edição revista e ampliada a Francisco Alves e a Imprensa Oficial do Paraná acabam de colocar no mercado.
Ferreira dos Santos, no livro, justifica a tese poundiana sobre a importância do artista como antena para a sobrevivência de uma nação. E, por tabela, de toda a humanidade. Só um escritor antenado nas demandas da atualidade consegue a façanha de pôr um pouco de luz nesse túnel meio indefinido onde o homem se meteu. ''Pensar e escrever para tornar o presente menos ilegível são a nossa única alternativa face à barbárie da indiferença'', resume.
É justamente nessa indiferença que o homem, de modo geral, se julga ''conectado'' com a realidade. Talvez esteja, em parâmetros virtual e midiático, especialmente da onipresente televisão. Porém, muito distante de valores culturais, éticos, econômicos e sociais. A TV fantasia a realidade. Mas o mundo é real, em sua acepção. E nessa ''ilha de fantasia'', igualmente virtual, o homem sequer passa a ter valor correspondente a uma palmeira de um jardim qualquer.
Por isso ''Breve, o Pós-humano'' é um livro instigante, porque tem a propriedade de dar uma sacudida nessa inércia. A causa disso? A atualidade de temas. Em 14 ensaios, Ferreira dos Santos transita da globalização financeira, cyborgs à reanimalizacão do homem, com incursões pela religião, leis, até a criação artística no futuro. Da antena do autor, não escapam nem mesmo minúcias da criação e manutenção do ''mito'' Galvão Bueno. São confrontos inquietantes e por isso prendem o leitor, ou seja, o livro mexe com (pré)conceitos, estilhaça propósitos, acena com desânimo, mas reconforta com a possibilidade das alternativas. Uma boa dose de fruição e catarse, especialidades de grandes escritores. Natural de Cornélio Procópio. o ficcionista, poeta e ensaísta Jair Ferreira dos Santos mora no Rio de Janeiro desde 1971. É autor de ''Kafka na Cama'' (contos), ''A Faca Serena'' (poesia), ''A Inexistente Arte da Decepção'' (contos), ''O que é pós-moderno'' (ensaio). E se prepara para estréia internacional com ''A Inexistente Arte da Decepção'' e ''Breve, o Pós-humano'', que devem sair em breve em Portugal.
A seguir, a entrevista com o escritor:

Em linhas gerais, como conceituar o pós-humano?
É complicado porque o pós-humano ainda não é um conceito, é um rótulo especulativo para certos fatos: a simbiose crescente entre o homem e as máquinas informacionais, a robótica, as neurociências, a biotecnologia, e o medo de que o sujeito humano perca sua autonomia, acentuado com a emergência da virtualidade. Entramos na era da evolução artificial da humanidade. Apareceriam então seres que não seriam mais ''naturais'', mistos de carbono e silício, os cyborgs, com as consequências sociais, políticas e culturais que isso implica. Cerca de 10% dos americanos, diz-se, têm algum implante artificial. O fato é que temos atualmente mais experiência da informação que informação da experiência, e isso em interação com telas e máquinas. Elas não nos levam à realidade, elas são a realidade.

Ele seria um modismo ou representa uma ruptura?
O pós-humano estaria perfeitamente inserido no modismo moderno da ruptura se tivesse ganho a mídia. Ele ainda mal circula pela academia e é na verdade um mal-estar, uma inquietação ante a possibilidade de que as coisas desandem. Por exemplo, já existem chips para provocar orgasmo, sem sexo, em mulheres, e remédios, próteses químicas que moderam o apetite consumista em gente gastadora. Nossas vidas já estão sendo afetadas por tudo isso. Basta pensar no trabalho em casa, no celular como um novo membro do nosso corpo. É pouco. Mas os indivíduos que assumem personalidades múltiplas na Internet, o filme Matrix mostrando como é a vida na hiper-realidade exclusivamente informacional projetam experiências até então desconhecidas para nós, e não sabemos se depois delas continuaremos ''humanos'' no sentido habitual. O perigo é: continuaremos a desfrutar de liberdade e identidade subjetivas? As neurociências estudam as relações entre cérebro e mente. Certa linha dominante afirma que o cérebro é um computador infinitamente complexo e que a mente é computacional. Se isto for comprovado, o que não acredito, essa metáfora vai ser desfeita a qualquer momento, teremos mudanças dramáticas na concepção do homem e no poder de alguns homens sobre todos nós.

Num ensaio polêmico, ''A Reanimalização do Homem'', você diz que, no fim da História o homem voltaria a ser animal. Como é isso?
Essa idéia pertence ao filósofo hegeliano Alexander Kojève e foi emitida em 1946 e de novo em 1959. No fim da História o homem se tornaria animal porque suas necessidades seriam integralmente atendidas e não haveria mais contradição, luta. Kojève vislumbrou a chegada desse momento no consumismo do american way of life. Ora, pensei, para se estender o consumo norte-americano a todos os países seriam necessários, segundo alguns cálculos, quatro planetas Terra em recursos naturais, porque cada americano consome anualmente, em média, 9,6 hectares de insumos diversos, enquanto a média mundial é de 2,1 hectares. Ora, o produtivismo que norteia as economias de mercado centrais e está saqueando o planeta é filho do humanismo, a idéia de que o homem, feito à imagem de Deus, ou senhor da Natureza, ou realizador da História, pode dispor de todos os seres à sua vontade. Isso está caindo por terra e a chance do homem sobreviver está em pensar-se enquanto espécie animal entre outras espécies animais. Ele não tem nenhum privilégio, é apenas um cachorro ou um macaco com capacidade simbólica, e sua salvação depende agora não de orações e rituais, mas de uma atitude preservacionista, antiprodutivista, que proteja seus meios de sobrevivência em escala global. Se juntamos aí o problema da superpopulação, o contexto fica dramático. É preciso uma etologia humana para reger melhor as relações entre Natureza e Cultura. Como exemplo, basta dizer que no Pantanal apenas 5% dos peixes atingem a idade adulta de reprodução!

Se o homem se reduz à sua animalidade, como ficariam as religiões, a arte, as leis e as criações simbólicas da cultura?
Bem, os homens não voltarão a piar como pássaros ou a comer carne crua. Eles continuarão a produzir cultura porém respeitarão a vida em todas as suas formas antes de se sentir com direito total sobre elas. Animalidade é aqui um ''paradigma irônico'', ou seja, a crise ecológica está nos obrigando a nos pensar enquanto espécie animal e, ao mesmo tempo, está nos ensinando os limites da Razão, que não sabe preservar seu ambiente físico e psicológico, e vai abatendo ficções tipo transcendência, alma, sentido da História etc.
Em seu lugar está vindo uma vida na pura imanência, na invenção contínua, na ausência de finalidade, em resumo, como os animais que não têm projeto nem História, vamos aprender a viver sem fundamento. Não existirá a ilusão de que precisamos nos salvar do ponto de vista religioso, ou de que a História tem um sentido. Do ponto de vista prático, o freio no produtivismo e o respeito à nossa animalidade poderão dar numa cultura mais saudável do corpo e sua sabedoria, poderão levar a uma sociedade menos veloz e sobretudo a um consumo sem excessos, monitorado pela temperança, suprema virtude platônica que equilibra os instintos animais e humanos, cuja ausência enche os consultórios psiquiátricos e faz a festa dos narcotraficantes.

''Breve, o Pós-humano'' fala também de poesia, de literatura, de entretenimento na clave da crítica cultural. Como ficam essas produções artísticas nesse futuro?
A meu ver a cultura letrada terá sempre o seu lugar, até porque o letramento - saber ler e escrever - é a base sobre a qual se assenta a cultura eletrônica. Até agora o e-livro não aprovou e Bill Gates declarou ler apenas até duas telas no computador; mais que isso, ele imprime. No entanto a cultura letrada, esteio do Iluminismo, está sendo solapada pela cultura visual, ou televisual, ou eletrônica, que é instantânea, pulsional, fragmentária, sintética, não linear, boa para o consumo. No comando dessa operação está o entretenimento, que vai permeando com sua lógica simplificadora e bem-humorada todas as produções simbólicas, do romance à religião. Isso é francamente limitador: os telejornais norte-americanos são redigidos para uma idade mental de 12 anos. No casamento da Lady Di, em 1981, os cavalos do cortejo foram tratados com pílulas especiais para fazerem cocô em cores telegênicas. Quanto à literatura, tudo indica que o que vai mudar é seu modo de produção e circulação, dada a fragmentação do mercado. Circuitos privados tendem a se formar. Já se podem editar livros em casa e a poesia, infelizmente condenada à irrelevância, há tempos dispõe de confrarias na Internet.
Ainda sobre a poesia, meu livro contém dois ensaios sobre o tema. Ela persistirá porque, falando por imagens, está muito próxima do corpo, e porque, indo além da razão, ela é o equivalente verbal moderno do espírito, ou seja, ela agrega fragmentos, migalhas de infinitude à nossa experiência. Quando lemos em Fernando Pessoa que somos ''escravos cardíacos das estrelas'', é preciso ser muito bronco para não sentir aí como o verso torna preciosa e grande a nossa pequenez. Existe mesmo uma completa impossibilidade de não-poesia.

Seu livro tem o subtítulo de ''Ensaios contemporâneos''. Onde entra o Brasil nessa contemporaneidade?
Pelo menos dois ensaios falam especificamente do Brasil. Um deles trata do locutor Galvão Bueno, tenta decifrar seu papel na ideologia da brasilidade, concluindo que, na figura dele, a TV Globo é uma sublimação da casa-grande. Em outro, ''A Estrutura do Oba-oba'', o foco recai sobre essa instituição nacional que é a nossa propensão festeira para o grandioso e o esquecimento. É o Mineirão, o Pinheirão, a Transamazônica, o Milagre Brasileiro dos militares. O oba-oba é o ponto de encontro entre o povo e a elite para uma ''exaltação no irreal'', e depois cada um que fique na sua. Dois outros textos incluem amplamente o Brasil porque seus temas pegam bastante por aqui: ''Mulher Feia pra mim é Homem'', onde o imperativo dos modelos de beleza televisuais fazem da telegenia uma eugenia, uma limpeza étnica, bastando você ver que em cidades como o Rio de Janeiro a falta de beleza é falta de educação; e ''A Hipótese Jon-Garfield'', uma interpretação do gato Garfield, da tira de Jim Davis, boneco que tem horror à igualdade, a partir da frase de um financista francês segundo a qual ''Abaixo de 20 mil dólares por mês só tem idiota.''

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