Muitas vezes, o ''politicamente correto'' age como uma espécie de censura na televisão. Com isso, muitos assuntos acabam proibidos de serem debatidos ou expostos. O hábito de fumar é um exemplo de comportamento banido da tevê brasileira. Entretanto a prostituição, apesar de ser um tabu em muitos lugares, continua dentro dos dramas aceitáveis para se explorar na teledramaturgia. Atualmente o tema está sendo retratado na novela ''Salve Jorge''. Na trama de Gloria Perez, a venda do sexo é trabalhada de maneira pesada, com cenas fortes de violência contra as personagens traficadas. ''A prostituição e o tráfico humano são assuntos reais e sérios. Não dá para ficar abordando a condição das meninas com glamour ou fantasia'', argumenta a autora sobre sua escolha de mostrar a realidade da vida de mulheres que fazem programa contra sua vontade.
A prostituição à força nunca tinha sido o tema principal de uma novela antes de ''Salve Jorge'', mas já foi incorporada em outros folhetins. Como em ''Belíssima'' em que Taís, a personagem de Maria Flor, em busca do seu sonho de ser bailarina acaba caindo nas mãos do tráfico internacional de mulheres, assim como muitas personagens da novela de Glória Perez. Em ''Fascinação'' do SBT, Walcyr Carrasco também abordou o sexo forçado. Clara, a mocinha vivida por Regiane Alves, tem seu filho roubado por um cafetão que a chantageia. E ela é levada a se prostituir em troca do bem-estar da criança. Mas as chamadas ''mulheres da vida'' nem sempre são retratadas de maneira tão dramática. E o próprio Walcyr é a prova disso. Na adaptação de ''Gabriela'', o autor demonstrou que um prostíbulo também pode ser retratado como um lugar alegre, cheio de humor e glamour. ''A obra de Jorge Amado trata a prostituição sem pudores. O núcleo do Bataclan é um contraponto ao moralismo social da época. Lá existem meninas sonhadoras, revoltadas, trágicas e cômicas'', analisa Carrasco.
Também é muito comum em novelas a prostituta de luxo. Que é aquela figura bonita e ambiciosa que escolhe ser uma profissional do sexo e cobra muito bem por isso. Em ''Máscaras'', o autor Lauro César Muniz mostrou por meio da personagem Manuela Marin, interpretada por Giselle Itié, que a vida de uma mulher que vende seu corpo também tem seus pontos positivos. E o principal deles é o dinheiro fácil. Talvez esse seja o tipo de prostituta menos aceito, já que o fato de ser uma escolha da própria mulher seguir essa profissão polêmica pode causar um certo julgamento da parte do telespectador. Esse foi um dos medos da atriz na hora de compor a personagem. ''A primeira coisa que precisei fazer foi não julgar a escolha da personagem. Conversei com duas meninas que trabalham como prostitutas de luxo e cheguei a questionar porque não trabalhar em lojas por exemplo'', conta Giselle Itié.
Já em ''Paraíso Tropical'', Gilberto Braga e Ricardo Linhares seguiram a fórmula já conhecida do filme ''Uma Linda Mulher'': prostituta pobre conhece homem rico, os dois se apaixonam e ele passa a sustentá-la. Nesse caso, Bebel, vivida por Camila Pitanga, conhece Olavo, de Wagner Moura. Os dois se apaixonam e o executivo canalha proporciona a ela uma vida muito melhor. A personagem de Camila fez tanto sucesso na época que apesar de ter participado de várias armações na novela, os autores decidiram que ela deveria ter um final feliz. E Bebel acabou a novela rica e famosa. ''Ela era uma prostituta ambiciosa que conquistou o público pelo seu jeito extrovertido e sua delicadeza'', acredita Linhares.
Versão masculina
Em geral, a prostituição é retratada com personagens femininas na televisão. Mas os homens também estão ganhando espaço como garotos de programa nas novelas brasileiras. Entretanto, quando se trata de pessoas do sexo masculino vendendo sexo, os perfis costumam ser bem parecidos. Homens bonitos, sempre cafajestes e muito ambiciosos. Diferente das prostitutas, os michês não se sentem culpados por sua profissão. Recentemente, Rodrigo Simas interpretou Leandro, um rapaz que apesar de ser heterossexual resolve vender seu corpo para outros homens em troca de dinheiro fácil. ''Eu trabalhei muito para mudar meu olhar para o personagem. Desenvolvi um olhar de mau para o Leandro'', conta Rodrigo.
Outra tipo de prostituição masculina retratada é a do homem que não se vende nas calçadas, mas tira proveito das mulheres que faz sexo. Um exemplo foi o personagem Ismael, de Juliano Cazarré, em ''Insensato Coração''. ''A grande dificuldade em interpretar um sujeito que transa por dinheiro são as complexidades das cenas. Ele não era um garoto de programa profissional, mas se aproveitava das mulheres'', conclui Juliano.

mockup