Mercado de arte é uma expressão que, ao contrário de Curitiba, tem pouca inserção em Londrina. A existência de uma única galeria na cidade – a Bahiarte – apenas salienta a timidez do setor. Fora uma ou outra exceção, caso de Letícia Faria, cuja obra possui apreciadores em outros centros, a maioria dos artistas locais recorre a atividades profissionais paralelas para poder manter uma produção regular e viver do metiê.
Nesse ambiente, palavras como marchand, galerista e colecionador só funcionam no singular. Mesmo assim, há sempre uma ou duas exposições de artes plásticas incluídas na agenda cultural da semana, sem contar as pequenas mostras instaladas sem qualquer divulgação em espaços alternativos como bares, restaurantes, lojas de decoração e até salão de cabelereiros.
‘‘Há de fato trocentas novas paredes para os artistas mostrarem seus trabalhos, o que é bastante louvável. Mas a comercialização de quadros é incipiente’’ – diz a artista Regina Menezes. A mesma constatação é feita por Yoshia Nakagawara, para quem a movimentação nos espaços paralelos pouco representa em termos de negócios.
‘‘Apesar de haver rotatividade de trabalhos nesses locais, vende-se no máximo 10% ou 20% do que é mostrado’’ – assinala ela. Paulo Menten repete o discurso acrescentando uma pitada de crítica ao que é exibido ao público. ‘‘Em geral, são telas de baixíssima qualidade sem qualquer mediação de um curador. É como colocar um vaso de flores numa sala de exposição. Ninguém v꒒.
Na Galeria Bahiarte, o papel do curador é desempenhado pela proprietária Ana Maria Barreto, o que sempre foi objeto de críticas na área. A marchand se defende argumentando que a atuação por quase três décadas no mercado forneceu-lhe currículo suficiente ‘‘para discernir e ter parâmetros na avaliação de obras de arte’’.
Outra queixa a ela dirigida diz respeito à exclusão de artistas londrinenses em seu acervo, fato que também é negado. ‘‘Já expus Jane Bordin, Vânia Tibery, Udhi Jozzolino e Yoshia Nakagawara. Jamais neguei espaço para nossos artistas’’ – diz. Aos queixosos, ela sugere que se organizem e batalhem eles próprios um novo espaço cultural. ‘‘No Rio de Janeiro, os artistas fizeram isso recentemente’’ – completa.
A eventual recusa em abrigar vertentes mais experimentais de arte contemporânea também tem custado azedas críticas à marchand. ‘‘A galeria é direcionada para o que tem qualidade’’ – ela rebate. ‘‘Nosso acervo já abrigou obras de Manabu Mabe, Siron Franco, Fukushima, Gilberto Salvador, Juarez Machado, Aldemir Martins, Caribé e outros grandes nomes da arte brasileira. Tenho critérios, não vou expor qualquer um que joga tinta na tela e sai se julgando artista’’.
A falta de locais apropriados para expor obras de arte contemporânea, aliás, é uma lamentação recorrente entre os artistas ouvidos pela reportagem. A ressalva recai sobre a Sala Celso Garcia Cid do Cine Teatro Ouro Verde, pertencente à Divisão de Artes Plásticas da Universidade Estadual de Londrina e considerado o único espaço adequado na cidade para abrigar instalações e outras manifestações artísticas surgidas na chamada pós-modernidade.
Para o colunista de artes visuais da Folha, Rubens Pilegi Sá, a arte contemporânea prescinde de espaços institucionalizados. ‘‘Não há necessidade dessa dependência’’ – observa ele. ‘‘A cidade toda já é um suporte para a arte. As instalações, as performances e as interferências urbanas podem ocorrer em qualquer lugar. Os semáforos, as sarjetas e o Calçadão também são ambientes propícios. O mais importante é que tudo seja acompanhado de debates, críticas e discussão’’.
De qualquer maneira, Yoshia Nakagawara está em campanha para abrir um novo espaço na cidade, que batizou de Ponto da Arte. Para ajudar, a pintora Tomie Ohtake doou uma tela avaliada em US$ 7.200,00, que será sorteada entre os compradores de rifas numeradas. Um outro trabalho, do pintor Okinaka, também foi doado para a campanha.

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