Um tempo em que se pode baixar qualquer filme pela internet marcaria o fim do tradicional DVD? Afinal, para que pagar por um produto que você pode obter de graça na rede? Certo. E, no entanto, errado. Porque, apesar de toda a facilidade proporcionada pela internet e pela pirataria, os distribuidores dos DVDs de arte continuam ativos.
A Versátil, de São Paulo, tem se tornado conhecida pelo lançamento, ainda em curso, da obra completa de um monstro sagrado como Ingmar Bergman. O sueco é amplamente conhecido por seus títulos mais famosos, como ''Morangos Silvestres'', ''O Sétimo Selo'' e ''Fanny & Alexander''. A sacada da Versátil foi, de um lado, não desprezar esses títulos mais quentes, mas, ao mesmo tempo, resgatar trabalhos da primeira fase de Bergman, os filmes que fez antes de se tornar um mestre do cinema mundial, como ''Crise'' (1945) e ''Chove Sobre o Nosso Amor'' (1946).
É um veio interessante, e que tem rendido bons frutos, como diz seu curador Fernando Brito. ''O nosso nicho de mercado ainda é o menos afetado pela pirataria e pelos downloads''.
Além do projeto de lançamento do Bergman completo, a Versátil tem investido em raridades de mestres, como a obra televisiva de Roberto Rossellini. Filmes como ''O Absolutismo'' e a série dedicada a filósofos como René Descartes, Agostinho e Blaise Pascal, eram conhecidas no Brasil apenas por textos de enciclopédias. Agora podem ser vistos em excelentes cópias, em discos que contêm também extras, como entrevistas com especialistas que explicam a trajetória do personagem.
Frederico Machado, proprietário da Lume, também se diz animado, apesar de reconhecer a existência de problemas: ''Continuaremos sim com os lançamentos em DVD e posteriormente em Blu Ray dos nossos filmes, pois percebemos que nosso público é muito segmentado e tem perfil de colecionador''.
As dificuldades existem e não são poucas. Frederico aponta a maior delas: ''O problema maior é financeiro. É um processo dispendioso comprar os direitos para o Brasil, replicar o original, providenciar material gráfico, distribuição, pagamentos de taxas e marketing... É preciso trabalhar de forma bastante inteligente, criando material extra interessante, disponibilizando novas artes gráficas, textos, ensaios para acompanhar o lançamento''.
Os dois concordam em outro ponto. Além de se aferrar ao nicho representado pelos colecionadores de filmes de arte, também é preciso diversificar. A Versátil vem distribuindo raridades do cinema americano como os já lançados ''Na Teia do Destino'', de Max Ophuls, e ''Sua Única Saída'', o faroeste psicanalítico de Raoul Walsh. A Lume vai além: começa a partir do ano que vem a trabalhar também com distribuição de filmes nos cinemas. ''A Lume é também exibidora e produtora, além de distribuidora. E a distribuidora nasceu por último, justamente por percebermos que era o maior entrave no processo de realização de um filme nacional'', diz Frederico.

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