Mercado de discos apresenta queda
Vigoroso nos últimos cinco anos, a ponto de se tornar prioritário em escala mundial, o mercado fonográfico brasileiro encerrou 1998 sem festa. Houve queda de faturamento de 17% - número assumido pela ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos), que monopoliza dados como esse no país. Consagram-se uma dupla sertaneja e um padre como os maiores vendedores do ano que passou.
Um Sonhador, de Leandro e Leonardo (o primeiro morreu de câncer, em junho; o disco saiu logo em seguida), teria vendido 3 milhões de cópias; Músicas para Louvar o Senhor, do padre Marcelo Rossi, 2,8 milhões. Os números são fornecidos pelas gravadoras dos artistas, mas se referem a cópias que saíram da fábrica - e não que chegaram às mãos dos consumidores.
Os dois êxitos reforçam a constatação de que cada vez mais o comércio de discos abraça indústria e consumo de massa, pisoteando arte e música. Mas a própria indústria se alvoroça diante da possibilidade de saturação. Assim é que o boom dos padres - EMI e Sony já se mobilizam para alavancar concorrentes do blockbuster Rossi - surge como salva-vidas num cenário em que bundas, pagode e sertanejo já rendem menos do que aquilo a que os cofres haviam se acostumado. Pois o segundo pelotão de vendedores patina na ordem de 1 milhão de cópias. A axé de É o Tchan (que em 97 batia a marca de 2 milhões) e Araketu e o sertanejo de Zezé di Camargo e Luciano e o Tributo a Leandro (ele de novo) ficaram por essa faixa - e só eles, além do eterno milhão de Roberto Carlos.
ReproduçãoO Padre Marcelo Rossi vendeu 2,8 milhões de discos em 98: recorde raro para um estreanteFora dos limites do brega, a MPB e o pop também precisaram rebolar para acontecer em 98. O medalhão Chico Buarque raspou nos 300 mil, com As Cidades. Para serem dos únicos a superar a marca de 300 mil cópias, Titãs apelaram ao brega (Volume 2, 380 mil cópias) e Rita Lee sucumbiu ao Acústico MTV (322 mil).
Ao Skank (750 mil cópias de Siderado), só bastou manter sua receita de reggae radiofônico. A EMI não forneceu seus números à reportagem, o que tira do ranking vendedores razoáveis como Paralamas do Sucesso e Carlinhos Brown.
O que tanto número significa? Que 98 foi o ano do revertério para uma indústria antes bêbada de entusiasmo. De 92 a 97, o mercado nacional cresceu 225%, saltando de 13º do mundo em 93 para sexto em 97. Em 97, cresceu 8%, contra 2% de média mundial.
Expectativas otimistas de crescimento de 7% em 98 se materializaram na realidade de 17% a menos de arrecadação e 10% a menos de cópias vendidas em relação a 97. Mas as gravadoras sustentam retórica otimista para o novo ano.
Nós caímos só 3%. A gravadora está investindo em produtos certos e procura estar em todos os segmentos do mercado. Não há crise quando se oferecem bons produtos. Não há crise, defende-se o diretor de vendas da PolyGram (agora Universal) - a do padre e do Tchan - , Jorge Lopes. Ele antevê 99: A recessão não vai nos afetar. Ninguém vive sem música. O Brasil fere qualquer estatística, quando se pensa que vem a crise, ela não vem. Crise existe a toda hora, 17% de queda não é tão catastrófico assim.
Não existe crise que possa nos impedir de lançar artistas novos. Em 99, lançaremos dez, que já estão sendo trabalhados desde o início de 98,
afirma o diretor artístico da BMG, Jorge Davidson. O ano não foi favorável para o mercado. Se 17% de encolhimento não traduz um cenário de crise, não sei mais o que poderia ser um cenário de crise, afirma o secretário-geral da ABPD, Roberto Souto, discordando de tal otimismo.
Ele próprio, no entanto, revela-se um otimista. O que acontecerá no novo ano, pesada a floresta recessiva que o país vive? Em 99, o mercado mantém os números de 98. Não ganha nem perde, prevê.ReproduçãoApós a morte de Leandro, a dupla Leandro e Leonardo vendeu 3 milhões de cópias do disco Um SonhadorPedro Alexandre Sanches
Agência Folha





