MERCADO - Pirataria de livros preocupa as editoras
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sexta-feira, 24 de outubro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Enquanto a discussão sobre os prejuízos que a pirataria de CDs causa aos músicos e ao País aumenta, uma outra situação preocupa as editoras e autores de livro. É o que as editoras chamam de ''pirataria do papel''. Tão comum quanto à pirataria de discos, mas bem menos discutida, a prática toma conta das universidades e escolas. Quem já foi estudante sabe como é difícil fugir da atividade ilícita e conciliar a legislação de direitos autorais - que proíbe a reprodução integral ou parcial de uma obra literária - com o alto preço dos livros e o volume intenso de material acadêmico para consultar. A saída, ainda que ilegal, são as copiadoras.
No ano passado, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, em Curitiba, chegou a ter as máquinas copiadoras lacradas pela polícia por causa do excesso de cópias de livros, depois de uma denúncia da Associação Brasileira de Proteção aos Direitos Autorais. ''Mas nem mesmo naquela época fazíamos a cópia inteira da obra. O máximo que copiamos é até 10% do livro'', defende o proprietário da empresa Copyline, Antônio Osni Portela, que atende a universidade com cerca de 30 máquinas. Mas pouca gente sabe que copiar até mesmo uma página do livro já fere a legislação autoral, já que não dá nenhuma contrapartida ao autor da obra.
Atualmente, para inibir a prática, a maioria das copiadoras instaladas nas escolas ostenta cartazes alertando sobre a proibição de copiar livros. ''Os próprios alunos vão se educando e hoje não temos tido muita insistência'', diz Portela. Mas é difícil coibir a prática, já que se a universidade proíbe, não é muito difícil encontrar uma copiadora fora da instituição disposta a fazer o serviço.
A professora do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Dinah Ribas Pinheiro, compara a situação a uma faca de dois gumes. ''Eu nunca me arrisquei a comprar um CD pirata, mas na universidade não tem como exigir que os alunos comprem todos os livros originais que vamos utilizar'', diz. Ela própria chega a deixar cópias de capítulos de livro para que os alunos possam xerocar.
Isso porque apenas na disciplina ministrada pela professora, os alunos chegam a consultar até dez livros por semestre. ''O estudante já tem a responsabilidade da mensalidade e não tem dinheiro para comprar os livros utilizados em todas as disciplinas.'' A solução, segundo Dinah, é oferecer um texto de cada livro. ''E o aluno pode eleger um para comprar'', opina.
No Paraná, não há um estudo formal sobre a quantidade de material fotocopiado. Em São Paulo, um pesquisa patrocinada pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), feita com 1.430 universitários, apontou que 63% dos entrevistados tiram cópias quando precisam ler um livro; 68% emprestam de uma biblioteca; 29% emprestam dos amigos; 6% fazem pesquisas na internet e apenas 1% compra a obra original.
O estudo apontou ainda que são copiadas 200 milhões de páginas por universitário na capital paulista. Considerando que a cada 20 páginas copiadas, um livro deixa de ser comprado, a associação concluiu que deixam de ser produzidos 9,9 milhões de livros a cada ano.
Para tentar mudar essa situação a editora Juruá está lançando um programa inédito no mercado. Trata-se da biblioteca virtual, um espaço na internet que permite consultas às obras da editora e compras de uma página do livro até capítulos inteiros. ''Algumas editoras já têm programas que permitem baixar o livro inteiro pela internet, mas já ficou provado que isso não funciona muito bem'', analisa o consultor de marketing e sócio da editora Rodrigo D'almeida Bertozzi.
Ele lembra que é difícil ler um livro inteiro, principalmente um romance, no computador, por isso a Juruá começou a implantar o sistema colocando à disposição apenas livros técnicos. Desde a semana passada estão disponíveis cerca de 200 títulos jurídicos. Atualmente a editora tem cerca de 1,3 mil livros publicados. ''A meta é que todos os títulos estejam disponíveis na internet. O usuário pode baixar desde a obra completa até parte dela, mas vamos nos centrar nos livros técnicos e contos'', conta.
A vantagem para o leitor é que o preço por página é o mesmo de uma copiadora de papel, variando entre sete e nove centavos. A diferença é que mecanismo de consulta permite que o sistema calcule automaticamente os direitos autorais para que o mesmo seja devidamente creditado ao autor. ''Esta é uma maneira que encontramos de democratizar a informação e estimular a venda de livros sem ferir a legislação autoral'', conclui.


