MERCADO - Livros instantâneos são fenômeno editorial
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A cada fato histórico marcante, o mercado editorial vê surgir um enxurrada de lançamentos sobre o tema. Foi assim depois dos atentados de 11 de setembro, por exemplo, e está acontecendo novamente depois do maremomoto que atingiu a Ásia. Chamados de ''instant books'' (livros instantâneos), esse fenômeno editorial há muito deixou de ser exclusividade americana, onde estima-se que a moda tenha surgido. Trinta e seis dias depois das ondas gigantes que deixaram o mundo perplexo, uma editora paranaense saiu na frente e lançou ''Tsunami - A onda letal'', da curitibana Andréa Deren Destefani.
O pouco tempo de lançamento foi possível, porque a editora Juruá, que lançou o título, investiu numa sistema de impressão que permite agilidade na hora de lançar um livro. ''Se o autor entregar o disquete com o texto já revisado hoje, posso entregar impressões da obra amanhã'', exemplifica o editor José Ernani de Carvalho Pacheco, proprietário da Juruá. O investimento de cerca de R$ 1 milhão numa máquina que imprime por demanda se justifica para atender a exigência do mercado.
''As pessoas querem informação com rapidez, mas sem pagar a mais por isso.
Imprimir por demanda e não acumular estoque é uma forma de baratear o custo do livro e colocar a obra no mercado de acordo com o interesse do leitor'', analisa o editor. Ele lembra que, mesmo sem dispôr da tecnologia que permite essa agilidade, o Brasil já bebeu da fonte dos ''instant books'', no passado, em ocasiões como o impeachment do presidente Fernando Collor.
Não existem, no entanto, dados brasileiros que apontem o número exato de títulos lançados depois de um fato evidente, aqui ou no mundo. Nos Estados Unidos, cerca de 3 mil títulos foram despejados nas livrarias depois dos atentados às Torres Gêmeas. Os EUA também viram pipocar obras relâmpagos depois da morte da princesa Diana e do escandâlo que envolveu o ex-presidente Bill Clinton com a então estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. O primeiro caso, em 1997, resultou em 270 obras lançadas e o segundo, no ano seguinte, em 26 títulos produzidos.
Para o diretor comercial da Livrarias Curitiba, Marcos Pedri, toda vez que existe um estímulo de informações na mídia, o reflexo nas vendas é imeditato. ''A empresa analisa os números de vendas nas lojas todos os dias e percebe a variação, que em alguns casos é muito alta'', diz. Ele exemplifica com os títulos que nadam na maré do Oscar, sejam de lançamentos ou relançamentos. ''Atualmente, os livros que inspiraram os filmes indicados ao Oscar já estão proporcionando mais procura pelos clientes'', observa.
Os exemplos são as reedições ''De Moto Pela América do Sul'', de Che Guevara traduzido por Américo Ambrosini (Editora Sá), que inspirou o filme ''Diários da Motocileta'', de Walter Salles e ''Aviador - A Vida Secreta de Howard Hughe'', de Charles Higham (Editora Record), no qual o filme estrelado por Leornardo de Caprio foi baseado. Os dois filmes concorrem ao Oscar. Até agora já foram vendidas 2.187 livros do primeiro, o que significa um crescimento de 43% e 862 unidades do segundo, um aumento de 37% na demanda.
Pedri cita outros exemplos de fenômenos de vendas em curto prazo, como ''Mad Maria', com 514 unidades vendidas depois do seriado do mesmo nome (aumento de 18%) e ''A Casa das Sete Mulheres'', com 4.011 unidades vendidas durante a exibição da série (aumento de 3807%). Para alavancar as vendas, a Livrarias Curitiba fica em contato permanente com as editoras para descobrir o que vai ser publicado na mídia e que deve ter uma boa repercussão. ''A chave do sucesso é descobrir isso na hora certa, ter os produtos nas lojas e nas vitrines no exato momento em que os filmes ou minisséries estão no topo de audiência'', diz Marcos Pedri.
O que é garantia de sucesso para as livrarias e editoras, no entanto, pode não agradar quem está em busca de qualidade. ''Os livros instantâneos são como o café instantâneo: saem rápido mas perdem em densidade, sabor e aroma'', considera o escritor Domingos Pellegrini. Ele compara: ''Um bom café precisa ser feito de grãos bem colhidos, maturados uniformemente, não chuvados nem com impurezas, torrados lentamente, daí bem moídos, finalmente recebendo água não fervente, mas pouco antes de ferver (quando começa a chiar), senão queima o café, eliminando o sabor e o aroma.''
E o escritor complementa: ''Já o café instantâneo vem de cafés que você nem sabe quais são, misturados para dar mais lucro, torrados por grandes máquinas industriais, e tanto faz você colocar água quente ou fervente, não tem aroma e sabor mesmo. Mas tem quem gosta, que é quem bebe café pela cafeína, não pelo aroma e sabor, como quem procura livros instantâneos está só procurando mais informação sobre um assunto momentâneo, satisfazendo apenas curiosidade e não o espírito, como faz um livro feito com densidade e maturidade.''


