MERCADO - Água-com-açúcar derrete as leitoras
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sábado, 09 de abril de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O cenário é sempre muito parecido: uma ilha paradisíaca ou um hotel afastado das grandes cidades. Os personagens também não chegam a surpreender: uma mulher fragilizada e um homem alto, forte e preferencialmente de pele bronzeada que se encontram ao acaso. O que acontece no meio da história, não importa muito, mas o final é sempre feliz e açucarado. Esses ingredientes aparentemente previsíveis são o tempero para um dos maiores fenômenos literários de vendas do País: a Série Romances, da Editora Nova Cultural.
São aqueles livrinhos que todo mundo já ouviu falar ou pelo menos viu em alguma banca ou sebo, como os clássicos ''Júlia'', ''Bianca'' e ''Sabrina''. Composta por oito títulos, a série vende uma média de 4 milhões de exemplares ao ano, despertando a ira de muitos escritores que não conseguem ultrapassar a venda nem da primeira centena de livros ao ano. A gerente de produtos da editora, que há 26 anos trouxe a famosa série para o Brasil, Daniella Tucci, justifica esse fenômeno de vendas com a busca pelo entretenimento. ''A maioria do nosso público (99%) é formado por mulheres. São leitoras que encontram nesses romances um momento de lazer'', observa Daniella.
Uma pesquisa feita pela editora aponta que a faixa-etária das leitoras muda conforme a região. Na região Sul e Sudeste, por exemplo as mulheres que devoram os cerca de 400 títulos que são lançados por ano pela editora têm acima de 30 anos. Na Região Centro Oeste, a faixa reduz para os 20 e 30 anos e no Norte e Nordeste, as maiores consumidoreas do gênero são adolescentes.
A empresária Luciane De Cunto, de Londrina, 42 anos, começou a ler a série na adolescência. ''Eu cheguei a colecionar esses livros, hoje não sou tão fanática'', conta. Ela salienta que tem o hábito de consumir todo o tipo de literatura, mas recorre à série de romances quando quer relaxar. ''É como ver uma sessão da tarde de antigamente'', compara, numa alusão aos filmes exibidos pela Rede Globo durante a semana.
A dona-de-casa Neli Taborda Moreno, de 40 anos, revela que chegou a ter caixas e caixas dos livros, distribuídos ao longo do tempo para as irmãs e cunhadas. A leitura dos títulos se tornou mania na década de 1980, quando ela lia pelo menos dois livros por semana. ''O que mais me agrada é que tudo é romance. As histórias são sempre bonitas e o final é sempre positivo'', analisa. ''E o preço também é convidativo'', diz. O valor dessas obras, aliás, também leva às mulheres, de todas as faixas e classes sociais, a consumirem as obras.
Nas bancas, onde os livros são vendidos em lançamentos semanais, o valor da série varia entre R$ 4,50 a R$ 11,00. Nos sebos, o valor cai ainda mais e os livretos podem ser encontrados a menos de R$ 1,00. O balconista do Sebo Só Ler, em Curitiba, Luiz Alberto Nardeli, diz que pelo menos 10% do movimento da loja gira em torno desses títulos. ''Mas a troca acontece mais do que a venda'', salienta.
Ele comenta que entre seus clientes, apenas um homem procura o gênero. ''Mas mesmo assim é para levar para mulher dele'', brinca. Cliente do sebo, a artesã Simone Oliveira, não vê atrativo nenhum na série de romances. Para ela, essa é uma ''literatura fácil, tipo 'água-com-açúcar' e que não traz nenhum tipo de enriquecimento ao leitor. Mas como explicar o boom de vendas que a série registra desde o seu lançamento, há quase três décadas?
A psicóloga Renate Vicente, professora da Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) conta que algumas mulheres que procuram esse gênero de literatura acabam se transportando para essa fantasia de ''final feliz''. ''A história que se quer viver está ali. É a fantasia do amor romântico'', explica a psicóloga. Para ela, a própria história da humanidade explica essa ansiedade de idealizar o amor. ''Alguns historiadores defendem que o amor sempre existiu, mas o amor romântico, que é diferente, começou a se desenvolver na Idade Média, com a idealização do parceiro'', esclarece, complementando: ''E a cultura ocidental faz do amor romântico uma cultura de massa a ponto das pessoas acharem que essa é a única forma de amar''.
O erro acontece quando a leitora projeta na realidade a existência do amor vivido pelos mocinhos e mocinhas desses melosos romances. ''A vida não é assim. Viver e ser feliz, dá trabalho'', diz a professora. Mas longe das análises comportamentais, esses livros continuam ganhando adeptos em todo o País, tanto que a editora pretende aumentar em 20% a venda dos livros este ano em função de uma ampla campanha de divulgação. Outro fator que deve alavancar as vendas é que pela primeira vez a Nova Cultural aposta em escritores brasileiros.
Até então, a editora comprava os títulos da empresa norte-americaana Kensigton, analisava e traduzia aqueles que tinham o perfil das leitoras brasileiras. Mas este ano, quatro escritoras do Brasil entraram para o time da Série Romances. Entre elas, Lucia Pinto de Souza, que no mês passado lançou ''Magia do Coração'' com o pseudônimo de Lucy Jordan e Gladys Pasmiki, que terá seu livro, ainda sem título, lançado no mês que vem. Os livros são distribuídos semanalmente em 25 mil bancas de todo o País.
Luiz Alberto Nardeli, que trabalha num sebo de Curitiba, diz que 10% do movimento gira em torno dos romances e só uma vez vendeu esse tipo de livro para um homem:Mas era para a mulher dele, justifica


