MENTOR DAS NOTAS BÁSICAS
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de julho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O célebre concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall, que teria lançado o gênero brasileiro mundo afora, foi uma grande confusão. Sob os holofotes brilharam a ansiedade e o oportunismo de bicões preocupados em aparecer. No palco, as interpretações não convenceram e uma série de imprevistos as luzes acenderam antes do término do show colaboraram para uma data pouco importante na história da música brasileira.
Na verdade, a coisa tomou um curso que beirou a insanidade e se alastrou pelo Rio de Janeiro. Pessoas chegaram a vender automóvel e apartamento vislumbrando a fama nos Estados Unidos. O equívoco teve início com um velho hábito nacional: receber um convite e, por consequência, estendê-lo a um colega. De amigo em amigo, cerca de mil pessoas disputaram um espaço no Carnegie Hall.
A versão é de quem não esteve lá mas conhece todos os detalhes. O contrabaixista Tião Neto foi amigo de Sidney Fry, o organizador do concerto, e esteve em Londrina ministrando uma palestra sobre a bossa nova dentro da programação do 20º Festival de Música de Londrina.
Carioca de fala mansa, músico veterano, Tião Neto não se deixou seduzir pela fama. Optou pela discrição e participou de gravações importantes ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, integrando o núcleo mais restrito e sério do movimento.
Em um estilo encabeçado por violão e piano, Neto preferiu as notas fundamentais. Quando era criança venceu um concurso tocando pandeiro, aos oito anos ficou impressionado ao ouvir Louis Armstrong e, já adulto, comprou um contrabaixo, sem mais nem menos. Na época trabalhava como aviador e esteve várias vezes em Londrina e Apucarana. Aqui só havia três coisas: café, carros do ano e barro vermelho, recorda. Depois arriscou-se no comércio até largar tudo pela música.
Cursou algumas aulas com Vidal, contrabaixista de Radamés Gnattali, e depois optou pelo autodidatismo. Eu e o Sérgio Mendes começamos a fazer alguns bailinhos. Ao lado de Vitor Manga na bateria, inauguramos o Beco das Garrafas, acentua, referindo-se ao centro nervoso da bossa nova, onde todos se reuniam para tocar e ouvir jazz, samba e sua fusão, o samba-jazz.
Mais ou menos nessa época criou o Bossa Três ainda em atividade , ao lado de Edson Machado na bateria (já falecido), e Luís Carlos Vinhas no piano. Paralelamente, se apresentava nos concertos de Bossa Nova nas universidades do Rio de Janeiro.
O movimento se fortaleceu, ganhou respaldo e o contrabaixista passou acompanhar João Gilberto. A música brasileira se reestruturava. Era uma chatice, tivemos 20 anos de marasmo, de dor-de-cotovelo, tango e samba-canção. Quando veio o sangue novo, com nova harmonia, novo ritmo, foi a glória, explica.
No centro do burburinho estava João Gilberto, com uma batida reconhecida como original até por questionadores da bossa nova, como José Ramos Tinhorão. Depois vieram centenas de seguidores, bons ou maus, mas todos copiando o que ele já fazia, complementa. O núcleo principal do movimento reunia cerca de 30 nomes.
Com João Gilberto, Tião manteve um bom contato: Íamos juntos para São Paulo tocar no Paramount. Também convivia com o Jobim, que tinha suas peculiaridades. A gente entendia isso e, em nome da bandeira, vivíamos harmonicamente.
O mico no Carnegie Hall surgiu com detalhes quase desconhecidos. No começo dos anos 60, um disc-jóquei americano descobriu a Bossa Nova, foi para o Rio de Janeiro e se abasteceu dos discos que conseguiu encontrar. Era Felix Grant, que passou a tocar maciçamente o estilo nos Estados Unidos. Para Tião Neto, é uma questão de qualidade: Isso prova que a música aconteceu por si só. Pouco tempo depois, vários músicos desembarcaram no Rio para gravar, entre eles Herbie Mann e Paul Winter.
Antenado com a movimentação, Sidney Fry resolveu organizar o concerto em Nova York. Ele era meu amigo e foi muito criticado, mas a verdade é que ele promoveu o concerto porque alguns americanos estavam vindo para o Rio. O Carnegie Hall foi um grande oba-oba. O Fry convidou algumas pessoas, por intermédio do Itamaraty, que chamaram milhares de outras, e até gente que não tinha nada a ver com a história foi sem ser convidado. Chegaram lá mil pessoas e o Sidney Fry não sabia direito o que fazer, lembra.
Os principais nomes ganharam destaque e o teatro lotou. Isso teve uma divulgação enorme, como se fosse o lançamento mundial da Bossa Nova, foi uma loucura aquilo. De qualidade não restou nada, tinha cerca de seis atrações, no máximo, o resto foi oportunismo.
O concerto, realizado em novembro de 1962, ganhou a fama. Mas o marco internacional foi o lançamento de Getz/Gilberto, gravado em Nova York em março de 1963. Com o saxofonista americano, o disco reuniu João Gilberto, Astrud Gilberto, Tom Jobim, Milton Banana e Tião Neto. Como Stan Getz esqueceu o nome do baixista, resolveu dar crédito a um nome fictício: Tommy Williams. A crítica foi positiva e a bossa nova finalmente ganhou dimensão internacional. O disco recebeu quatro Grammy.
Tião Neto passou a viver em Los Angeles e só voltou ao Brasil em 1984, para integrar a Banda Nova de Tom Jobim. Atualmente, é curador do acervo discográfico da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Com a cantora Wanda Sá e o Bossa Três, acabou de gravar um disco destinado ao público japonês, e já pensa em embarcar, pela vigésima vez, para tocar no Japão.
A música é dinâmica e aceita todo e qualquer movimento. Se ele é bom ou ruim, é outro julgamento. Temos dois ouvidos, o interno e o externo. O interno é sua própria sensibilidade de escolher uma boa música. O externo é fisiológico, recebe os ruídos da rua, os gritos do vizinho. A música massificada faz parte do ouvido externo, argumenta.
No raciocínio musical pró-qualidade, Tião Neto justifica transformações como a bossa nova e sua própria trajetória profissional cheia de influências diversas com uma frase que pinçou de Stan Getz: Se você toca a mesma coisa durante 20 anos ou você é burro ou não tem talento.


