MENTIRA NOSSA DE CADA DIA
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de setembro de 2001
Zeca Corrêa Leite<br> De Curitiba 
Na semana passada uma cena comum no calçadão em Curitiba, mas ao mesmo tempo curiosa: a repórter de televisão abordava os passantes e fazia perguntas no mínimo estapafúrdias. Aquilo que poderia ser motivo de riso, é levado a sério. E os entrevistados dão suas opiniões. Alguns exemplos:
- O que você achou da decisão do governo de alugar a Amazônia para o próximo filme de Steven Spielberg? O que deve acontecer com o terrorista árabe que foi preso ontem em Curitiba por causa dos atentados nos Estados Unidos? O que a Prefeitura de Curitiba deve fazer para acabar com as piranhas que estão atacando as pessoas no lago do Barigui? O que você achou da convocação de Toninho Cereso para reforçar o meio campo da seleção brasileira?
As imagens captadas irão ao ar hoje, às 18h30, ilustrando o programa ''Cidadania É'', transmitido na capital pelo Canal Paraná - Canal 9 e para o resto do Estado pela Rede Paraná. O tema do programa é a mentira e as respostas do público mostram isso: há sempre uma mentira, por mínimo que seja, prestes a ser aplicada.
''A mentira é um componente do ser humano; isso ficou bem claro neste trabalho'', avalia o jornalista Ney Hamilton, apresentador de ''Cidadania É''. Para ele a 'mentira social' é uma qualidade necessária: ''Não viveríamos com a verdade absoluta. Uma pessoa assim seria insuportável''. Tem mais: ''A gente precisa dos códigos de polidez que se assentam também em pequenas mentiras''.
O publicitário e escritor Jamil Snege diverte-se ao separar a mentira por setores. Uma delas é a piedosa, ''praticada por dever de civilidade''. Essa ele pregou muito a um amigo seu que queria emagrecer; a cada vez que se encontravam Snege elogiava-lhe a silhueta. ''Nossa, como você emagreceu!''. Era um engano necessário, assim como: ''estou abatido? não, você está ótimo''.
''A publicidade mente'', afirma. Ela usa do artifício da construção de uma imagem substituta para vender. Quando o produto é um carro, o motorista aparece sempre cercado de belas mulheres, a mecânica da máquina perfeita, o pneu não fura, o preço da gasolina não aparece na cena. Numa propaganda de cerveja tem-se a rica vida social, os amigos reunidos, todo mundo feliz.
''Jamais a propaganda vai mostrar um cara frustrado no meio da noite, abrindo a geladeira, pegando uma latinha para voltar em frente à TV onde está passando um filme chato. É um falseamento da realidade'', afirma. E a fantasia, seria uma forma de mentir? Jamil Snege acredita que não - ela seria uma projeção idealizada da realidade.
Ou, citando o poeta Coleridge, ''ela exige uma suspensão temporária da incredulidade''. ''Não fosse assim e não nos emocionaríamos com a arte. Aliás, há uma espécie de pacto entre o artsta e o público''. Sobre o comportamento dos entrevistados em se mostrarem informados - e caírem na peça pregada pela repórter - o publicitário diz que ''isso é tão velho quanto o mundo. No geral as pessoas têm pudor de mostrar que não sabem''.
A insegurança (ou o medo) poderia ser a mãe de todas as mentiras. O terapeuta holístico Jorge Ramalho parte da visão de que ''o fingimento cria a mentira''. Esta atua como uma máscara para esconder estados ou sentimentos conflitantes. ''No fundo está o medo, que não fica na superfície''.
O comportamento das pessoas em darem uma resposta que julgam satisfatória, mesmo sem dominar o assunto, é pelo receio de se sentirem inferiores às outras, supostamente mais bem informadas. ''Medo é um sentimento básico do ser humano, mas é uma coisa que pode ser trabalhada e a pessoa sair do medo''. Quanto mais usa da verdade, mais feliz ela se torna, conforme o terapeuta. Por outro lado, quanto mais presa aos temores, mais propensa está para o fingimento, o esconderijo e, automaticamente, à mentira.
Marcos Meier, psicopedagogo, assinala três tipos de mentira: a que existe pela omissão; a propriamente dita e a que usa a verdade de forma manipulada, transformando o sentido da informação. Esta é a mais sutil, e pode ser exemplificada com a história do capitão que todos os dias encontrava o imediato bêbado e avisava que iria denunciá-lo no relatório, se não se emendasse.
Depois de muito conselhos e nenhum progresso, o capitão realmente notificou os superiores sobre a embriaguês do imediato. Este esperou o dia da vingança. Na primeira oportunidade, quando foi encarregado de montar o relatório diário, anotou: ''Hoje o capitão estava sóbrio''. Era verdade, mas induziu o entendimento de que noutros dias o colega se encontrava embriagado.
Em toda a história da humanidade o conhecimento sempre teve alto valor, mas atualmente ele vale mais que o dinheiro, no entender de Marcos Meier. ''Hoje, na sociedade, o conhecimento é tudo. Se a pessoa não tem conhecimento, não tem valor. O não saber é tido como uma falha, daí que se admite a discussão de um assunto mesmo não sabendo do que se trata'', explica. Aí entra a mentira.
A escritora Regina Benitez decreta: ''A verdade é tão grosseira. A mentira é bonita, enfeitada''. Assim como seus textos envoltos em climas fantásticos, Regina se expressa sobre a vida: a nudez faz dela um corpo estranho, seco, sem atrativos. ''Digamos que a vida tivesse o corpo de uma mulher: inteiramente nua ela seria feia, mas coberta por fieiras de pérolas, fica linda. As pérolas são as mentiras; eu a prefiro assim, insinuante sob as jóias''.
Essas são as chamadas 'mentiras boas'. ''Não aceito as que machucam, prejudicam a gente. Até gosto de ouvir as que nos levam para a fantasia. A linha que parte para a imaginação é como se acendesse a luz de uma sala escura. E o que está na sala é aquilo que a gente quer ver: por que ferir a imaginação?''.


