Mente divaga, corpo trabalha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de janeiro de 1997
Sophia Dembling Los Angeles Times Syndicate/AE 
Divulgação/Recanto das ToninhasUm dos grandes benefícios do exercício é a queima de catecolamina, o hormônio do stress que se acumula no dia-a-dia
Arquivo FolhaTrabalhar duro durante o exercício também estimula a atenção
Arquivo FolhaSe durante o exercício os pensamentos estão conduzindo a lugares stressantes, o melhor a fazer é redirecioná-los para locais mais alegres
Concentração é vital para quem quer mudar para um nível mais elevado o programa de exercícios
Você sai para correr ou dar uma bela caminhada. Está se sentindo muito bem, o sol brilha, os pássaros cantam e tudo em volta parece fresco e cheio de área verde. Aí, você se lembra que a grama do jardim precisa ser aparada. O que lhe faz dar-se conta de que o aparador está sem gasolina. O que faz com que venha à mente um probleminha no carro que precisa ser visto. O que lembra o trânsito horroroso que provocou atraso no trabalho, fazendo com que algumas tarefas fossem adiadas para o dia seguinte. O que lembra...
De repente, você não está correndo mais, nem mantendo o ritmo de sua caminhada, se foi esta a opção. Estará marchando, na melhor das hipóteses. O cérebro parece ter ocupado um caminho que devia ser dos pés. A primeira vez em que tentei correr, estava entusiasmado. Mas, mal tinha passado um quarteirão, já estava andando, comentou Mark Hendricksen, diretor de uma firma produtora de vídeo para ginástica. Como manter a concentração durante o exercício?
Na verdade, segundo os especialistas, não é sempre importante que se tenha concentração. Phillip Walker, sócio-gerente da Clínica Walker Wellness, de Dallas, diz que é muito difícil manter a concentração em uma única atividade por um largo período de tempo.
Segundo Robert Gatchel, psicólogo do Southwestern Medical Center, em Dallas, para quem sai de casa apenas pretendendo exercitar-se um pouco, dar à mente a liberdade de divagar pode adequar-se perfeitamente ao que se vai fazer e, ainda, representar parte do prazer com o exercício. Algumas vezes, o exercício pede um pouco de atenção apenas, antes e durante sua realização. Decidir o que se pretende fazer é a chave para orientar o nível de atenção que se precisa ter, até porque é mais fácil a concentração quando se tem algo específico para concentrar-se.
O objetivo de sair de casa para fazer exercício é fortalecer o coração? Correr um quilômetro e meio em quatro minutos? Aperfeiçoar o nado de costas? Se for, será preciso uma boa dose de concentração nessas metas. Se o propósito é manter o coração pulsando forte, Walker sugere o uso de um monitor de batidas, que se pode encontrar em muitas lojas de artigos esportivos, para checar sem dificuldades de tempos em tempos o ritmo cardíaco. Pode-se inclusive encontrar um monitor que emita um sinal sonoro, se o batimento cardíaco cair abaixo da meta predeterminada. Contando que o coração esteja batendo no ritmo desejado, a mente pode divagar à vontade.
Piloto automático Walker observa ser comum que corredores iniciantes percebam que perderam o ritmo quando perderam a concentração. Corredores mais experientes, que já conhecem bem o próprio ritmo, que se sentem familiarizados com a técnica e entendem o que é preciso para manter elevado o nível de batimentos, podem ligar o piloto automático sem sacrifício da velocidade ou da forma.
Pode-se pensar em qualquer coisa e continuar correndo a maioria do tempo, diz Hendricksen. Contudo, se os pensamentos estão conduzindo a lugares stressantes - como a sala do chefe, ou a uma briga conjugal - o melhor a fazer é redirecioná-los para locais mais alegres.
Um dos grandes benefícios do exercício é a forma como queima catecolamina, o hormônio do stress que se acumula no dia-a-dia. A preocupação durante o exercício, seja por problemas pessoais ou uma competição muito acirrada acaba levando ao acúmulo de mais catecolaminas, em lugar da queima das já acumuladas.
Para quem está tentando mudar para um nível mais elevado o programa de exercício, a concentração é vital. Scott Collins, técnico da equipe de natação feminina da Universidade Metodista do Sul, que conseguiu classificar duas atletas para as Olímpiadas, diz ser difícil para as nadadoras cem por cento de concentração em seu período de treinamentos, que chega a ser cerca de 20 horas por semana. Mesmo assim, ele tenta mantê-las o máximo possível focadas, de modo a extraírem tudo o que puder de cada braçada. Quando se chega a um estágio desses, ao ponto crítico em que o esforço é realmente penoso, não havendo uma efetiva concentração, não se consegue dar o passo necessário para mudar de nível, diz ele.
Quando são atletas trabalhando com desempenho em velocidade, Collins faz com que se concentrem nos tempos. Em outras ocasiões, treina o desenvolvimento da técnica ajudando-os a manter a concentração sobre cada movimento feito. Ao treinar corredores, Walker faz com que coloquem um elástico em torno de um dedo e sugere que toda vez que perceberem a presença do elástico façam uma avaliação sobre a forma como estão correndo.
Símbolos Pode-se procurar ver o reflexo do próprio corpo em janelas, ou checar a própria sombra. São algumas das estratégias de atletas de competições que escolhem determinado gesto, como ajeitar os cordões de uma raquete de tênis ou colocar algum símbolo no equipamento para lembrar que devem respirar fundo, relaxar os músculos e se concentrarem, diz Gatchel.
Trabalhar duro durante o exercício também estimula a atenção. No levantamento de peso, quem está para erguer 120 quilos tem de se concentrar especificamente nisso, observa Walker. Presta-se automaticamente mais atenção numa atividade física quando é mais dura.
Mesmo para quem não está enfrentando pesos dessa ordem, obter o melhor resultado no levantamento exige concentração, diz ainda Hendricksen. Com frequência, colocamos todo o nosso esforço para o levantamento, negligenciando a fase de descida, explica. A concentração para suportar o peso em todo o caminho de volta fará com que se melhore o movimento.
Collins sugere que sejam escolhidas várias opções. Por exemplo, quem planeja nadar por uma hora pode variar as braçadas, ou fazer parte do percurso com uma prancha, ou ainda intercalar voltas aceleradas com outras mais suaves, que tragam prazer. Obviamente, uma sessão de ginástica com muitas variações, como uma aula de step em que o professor não deixa a turma relaxar por um minuto, muito provavelmente acabará sendo mais frustrante do que divertida.
São casos bem específicos, enfim, em que uma concentração intensa é necessária, às vezes indispensável. Fora isso, tendo os movimentos do exercício bem internalizados, pode ser agradável, recomendável até, deixar a mente divagar. As pessoas em sua maioria querem automatizar o que estão fazendo para que não precisem de empenho na concentração, para que possam relaxar, conclui.


