Mentalmorfose
Uma barata acorda de repente, depois do desmaio pela aspiração forte de um novo inseticida, e se vê transformada num homem. Um pouco tonto, não consegue entender direito o que está acontecendo. Ele está deitado no chão, não consegue mexer as perninhas para se desvirar e correr para baixo da estante. Em vez disso, sente que tem membros mais pesados, sem a mesma mobilidade dos antigos. Olhando para o teto, automaticamente leva uma das mãos aos olhos porque luz incomoda. Olha para as pontas das mãos e vê dedos que podem se mover tão depressa quanto suas antigas e ágeis pernas. Aos poucos, a barata toma consciência da sua nova forma. Faz os movimentos pensados que deseja e outros involuntários. Os olhos piscam sozinhos. Mas as mãos podem ir para o chão e dar impulso para que ele fique sentado. O quarto toma outra dimensão. Os móveis ficam noutra perspectiva. As pernas flexionam e se juntam ao corpo. Ele percebe que pode se desvirar mais facilmente. Logo está de gatinhas e quer correr para baixo da estante. O corpo é muito grande e ele bate acabeça na madeira. Dói. Ele recua e leva a mão ao couro cabeludo. Uma reação que nunca teve quando era apenas uma barata. De imediato, ele olha para o cantinho e vê que outras baratas conseguem se esconder rapidamente. Tenta uma comunicação com elas. Quer dizer que era uma delas. Sai um som medonho da sua boca. As baratas correm mais ainda e somem nas frestas. Assustado, o homem faz um movimento estranho e fica de pé. Mais uma dimensão para o mundo. Olha para baixo e vê que uma barata retardatária foge. Quase não reconhece, tão distante ela está. Seria um besouro? Besouro? De onde tirou esta palavra? Logo ouve sons vindos de uma outra sala. São iguais àquele que pronunciou quando foi se comunicar com as baratas. A porta se abre de repente. Por um instinto retardatário, ele quer correr para baixo de algum móvel. Uma figura igual a ele entra no quarto e toma um susto muito grande. Põe-se a gritar como se tivesse visto uma barata. O que havia sido barata vê que a figura é seu semelhante e fala com ela. Faz gestos, pronuncia algumas palavras. Mas o outro olha com ódio e começa a gritar ainda mais: O que é que vo-você está fa-fazendo aqui? Que-quem é você? La...Pega ladrão! Aquele que antes era barata não entende. Pouco antes havia insistido em se comunicar com suas companheiras de lixo e elas fugiram. Agora que conseguiu se reconhecer num igual, ele berra e ameaça avançar com punhos cerrados. O que acontece com os humanos? Não são iguais? Uma barata não ameaça outra com tanta veemência! Por que um ser humano não reconhece outro? Por que acha que é tão diferente? Ele vai pensando tudo isso enquanto sente golpes acertando seu rosto, sua cabeça, seus ombros, sua barriga. Sente que seus braços querem protegê-lo mas são fracos. E os golpes acertam e acertam. A dor humana e o sangue que escorre do seu nariz, também. Mas ele não entende o que o outro sente. E vai sucumbindo até ficar de cara no chão. Seu último olhar, antes de desmaiar, é para um cantinho escuro entre duas tábuas soltas na parede. Mas não pode fazer nada para chegar lá e se esconder.





