Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Normalmente achamos que para aprender história é necessário abrir um, dois ou três livro e ler. Mas a história, principalmente a recente, não está apenas escrita no papel, nos livros. Ela também está na memória das pessoas, principalmente na lembrança das pessoas mais velhas.
Quando um pai, um avô, numa conversa com uma criança, conta que em sua infância não brincava de videogame, mas sim de pião e bolinha de gude, está narrando elementos históricos. Uma simples conversa, corretamente contextualizada, pode ser considerada uma aula. Nessas situações, a memória, carregada de emoções, pode ter o mesmo valor que um livro.
Curiosamente, até mesmo o aprendizado de que a memória das pessoas próximas estão povoadas de história, pode estar nos livros. É o caso da coleção ‘‘Memória e História’’, editada pela Companhia das Letrinhas destinada ao público infanto-juvenil.
O mais novo título da coleção, ‘‘Minha Vida de Goleiro’’, escrito por Luiz Schwarcz, ao mesmo tempo que apresenta a infância do autor e sua tentativa em se tornar um goleiro de verdade, revela a história de sua família. Através da memória dos pais, imigrantes judeus, reconstitui a Segunda Guerra Mundial e a perseguição dos judeus pelos nazistas.
O recurso não é complexo: por intermédio da memória da família a criança entra em contato com o passado de maneira natural, orgânica. Nesse processo de reconstituição oral, o passado torna-se um conhecimento que necessariamente não está restrito a livros, mas ao relato de cada um que viveu aquele passado. Ou seja, as pessoas podem ser consideradas espécie de livros carregadas de informações vivenciadas.
É o que acontece nos outros dois títulos da coleção. Em ‘‘A História dos Escravos’’, a historiadora Isabel Lustosa narra as descoberta de Chico, um garoto que vai passar alguns dias na fazenda do avô. O menino fica surpreso ao saber que um dia escravos viviam ali, pessoas que pertenciam a outras, sem liberdade, sem nada receber. A partir de um enredo ficcional, a autora revela a dolorosa etapa da escravatura brasileira – para isso utiliza uma bela conversa e fotografias.
Em ‘‘Histórias de Avô e Avó’’, o professor Arthur Nestrovski conta as histórias que ouviu dos avós, judeus russos que imigraram para o Brasil e se instalaram no sul do país. Mostra a possibilidade de relações entre netos e avós, ou seja, o aprendizado. Aprendizado que pode ser de mão dupla, entre gerações distintas.
Cada qual a sua maneira, os títulos da coleção ‘‘Memória e História’’ focalizam tanto a história oral familiar como a história do Brasil – e em alguns casos, a universal. De maneira descontraída mostra que a história não está apenas nos livros de escola, mas na memória dos pais e avós. Narrado de maneira mais próxima, direta, o entendimento histórico passa a não ser meramente racional, mas também emocional.
Minha Vida de Goleiro – de Luiz Schwarcz, ilustrações de Maria Eugênia, Editora Companhia das Letrinhas, Coleção Memória e História, 48 páginas, R$ 16,50.
A História dos Escravos – de Isabel Lustosa, ilustrações de Maria Eugênia, Editora Companhia das Letrinhas, Coleção Memória e História, 48, R$ 15,50.
Histórias de Avô e Avó – de Arthur Nestrovski, ilustrações de Maria Eugênia, Editora Companhia das Letrinhas, Coleção Memória e História, 42 páginas, R$ 16,50.

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