Menos diversão, sem James Coburn
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quarta-feira, 20 de novembro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Ouvindo música tranquilamente na sala de casa em Los Angeles com a segunda mulher, a jornalista Paula Murad. Assim morreu anteontem à tarde James Coburn, um dos atores mais característicos dos anos 60 e 70, com amplo reconhecimento popular por suas marcantes participações em produtos de ação, muitos deles em tom de comédia.
Descendente de ilustre linhagem de atores - o avô foi o grande Charles Coburn -, desde cedo o jovem James sabia que seu destino era a interpretação. Depois do serviço militar deixou a terra natal, Nebraska, e foi atrás do aprendizado artístico, primeiro em Nova York, depois na Universidade de Los Angeles. E já no início dos anos 50, depois de aparecer em spots publicitários, foi figuração e depois intérprete secundário em dezenas de episódios televisivos de séries ambientadas no velho oeste (entre eles ''Bonanza'', um clássico dos primórdios da telinha). Sua estréia oficial no cinema, como coadjuvante do ''mocinho'' Randolph Scott, seria em 1958 pelas mãos de um mestre do ''western'': Budd Boetticher, que o dirigiria em ''Fibra de Herói''. Então vieram os anos 1960, com título decisivos como ''Sete Homens e Um Destino'' (John Sturges, 1960), ''O Inferno é Para os Heróis' (Don Siegel, 62), ''Charada'' (Stanley Donen, 63), ''Fugindo do Inferno'' (John Sturges, 63), ''Vendaval na Jamaica'' (Alexander McKendrick, 65) e ''Juramento de Vingança'' (Sam Peckinpah, 65).
Embora a esta altura já festejado pelo público, o grande êxito pessoal e prova de popularidade veio quando encarnou o espião Derek Flint, uma versão americana ainda muito mais cínica e irônica que o James Bond britânico, uma espécie de pré Austin Powers. A curta série-paródia teve dois títulos, o primeiro um enorme sucesso de bilheteria. Apesar do tom zombeteiro, Coburn tomou lições de artes marciais com ninguém menos que Bruce Lee.
Na década de 1970, a consolidação da carreira veio com material de qualidade superior: ''Receita: Violência'' (Blake Edwards, 72), ''Mais Forte que a Vingança'' (Sergio Leone, 72), ''O Fim de Sheila'' (Herbert Ross, 73), ''Pat Garrett e Billy the Kid'' (Sam Peckinpah, 73), ''Lutador de Rua'' (Walter Hill, 75), ''O Risco de Uma Decisão'' (Richard Brooks, 75), ''Fortaleza do Inferno'' (Douglas Hickox, 76) e ''Cruz de Ferro'' (Sam Peckinpah, 76).
Embora bem menos atuante, Coburn não deixou de ser lembrado pelos realizadores nos anos 1980 e 90. Duas décadas, aliás, atormentadas por uma artrite reumatóide deformante, visível principalmente nas mãos que o ator nunca procurou esconder. Quase incapacitado e sem poder trabalhar, Coburn tratou a doença com um suplemente de dieta chamado MSM (methylsulfonylmethane), que eliminou de vez a dor. E para sua carreira em câmera lenta o remédio ironicamente se chamaria ''Affliction'' ou ''Temporada de Caça'', o pesado drama de Paul Schrader, filme que em 1998 lhe daria o primeiro Oscar da carreira, como coadjuvante. A partir daí, sentindo-se rejuvenescido, passou de ator com quem se pode contar a ator que todos querem. Uma dos últimos trabalhos foi somente emprestando a conhecida voz de baixo profundo a Henry J. Waternoose, o presidente-caranguejo da empresa ''Monstros S.A.''.


