Marcos Losnak
Especial para a Folha2

ReproduçãoCaetano Veloso: ‘‘Tive que transitar
do técnico ao
confessional para
abranger o mundo
de idéias que o
assunto central
sugere’’Há quatro anos, Caetano Veloso, um dos grandes criadores da música popular brasileira, decidiu atirar-se na aventura de escrever um livro que narrasse sua participação no nascimento da Tropicália, movimento musical ocorrido na segunda metade dos anos 60. O livro, que recebeu o título de ‘‘Verdade Tropical’’, chegou nas livrarias em novembro com uma pesada campanha de marketing, confetes e serpentinas. Rapidamente entrou para a lista dos mais vendidos. Rapidamente foi elogiado, adorado. Rapidamente foi malhado, execrado.
‘‘Verdade Tropical’’, apesar da polêmica, possui uma grande importância histórica. Trata-se do primeiro relato detalhado do movimento tropicalista - movimento que daria novos rumos à música popular brasileira - narrado por um de seus mais importantes expoentes. Uma visão de dentro e com o distanciamento de década.
Criado na sequência da Bossa Nova, o Tropicalismo foi pensado e calculado para ser uma revolução musical. Caetano deixa isso claro, conferindo grande valor às discussões que mantinha com não músicos. Discussões que intercambiavam o Cinema Novo, a própria Bossa, a contracultura em florescimento, o rock que tomava poderosos rumos, o Concretismo, a tradição da canção brasileira e a cultura de massa. Em suas palavras, ‘‘a palavra-chave para se entender o tropicalismo é sincretismo’’.
No texto de introdução do livro (que recebe o título de ‘‘Intro’’) Caetano procura definir sua obra: ‘‘Não é uma biografia. É antes um esforço no sentido de entender como passei pela Tropicália, ou como ela passou por mim; por que fomos, eu e ela, temporariamente úteis e necessários um ao outro.’ Mais a frente conclui: ‘‘Tive que me permitir transitar do narrativo ao ensaístico, do técnico ao confessional (e me colocar como médium do espírito da música popular brasileira - e do próprio Brasil) para abranger uma área considerável do mundo de idéias que o assunto central sugere.’
‘‘Verdade Tropical’’, publicado pela Editora Companhia das Letras, demonstra ser, antes de tudo, uma obra memorialística. Caetano escreve suas memórias do período específico de sua infância na cidade baiana de Santo Amaro até a volta do exílio em 1972. O foco central fica entre os anos de 1964 e 1971, período em que o movimento tropicalista floresceu e criou raízes.
Um dos fatos narrados por Caetano é a origem do nome ‘‘tropicália’’ para designar o movimento. Tocando uma música ainda sem nome numa festa de amigos, Luís Carlos Barreto -fotógrafo que trabalhou com Glauber Rocha em ‘‘Terra em Transe’’ - sugeriu o nome ‘‘tropicália’’ para a música numa referência aos trabalhos do artista plástico Hélio Oiticica. A música foi batizada assim e posteriormente num artigo de jornal, o então jornalista Nelson Motta chamou o movimento de ‘‘tropicalismo’’, nome que acabou se espalhando.
Nas páginas de ‘‘Verdade Tropical’’ Caetano deixa claro seu objetivo ao lado de Gilberto Gil de revolucionar a música popular brasileira. Coloca todas as influências para o desenvolvimento do movimentos tropicalista e todos seus alicerces intelectuais. Descreve detalhadamente todos os materiais utilizados na construção da Tropicália mas não revela completamente sua arquitetura estética.

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