Memórias trágicas em livro
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de dezembro de 1998
Carlos Haag Agência Estado 
Ele estava mais do que certo em se defender do homenzinho atarracado que, enfurecido, disparava aos berros de: Vim para matar ou morrer. O atacante já havia mesmo atingido o seu irmão na nuca. O que era natural, a legítima defesa do atacado, Dilermando de Assis, foi considerado pela posteridade, burra, como um crime hediondo, já que o invasor agira em legítima defesa de sua honra. Afinal, como perdoar a quem matou Euclides da Cunha? Era demais para o brio oficial da Pátria e Assis foi execrado pela nação até a sua morte, em 1951.
Para recuperar a memória do assassino do símbolo pátrio, sua filha Dirce de Assis Cavalcanti resolveu escrever O Pai, uma tocante reconstituição de sua infância, marcada pelo silêncio de sua família (Dilermando casou-se com outra mulher após enviuvar de Anna) sobre o crime - ou dos crimes, porque o filho de Euclides também tentaria matar Dilermando e foi abatido: de ambos os crimes ele foi absolvido - e a descoberta, na exposição à humilhação por colegas de escola e professores truculentos, do passado do pai, que, aos 17 anos, ousara amar Anna (que sempre se defendia, dizendo: Eu não errei, eu amei), mulher do autor de Os Sertões.
Dirce lançou no último dia 5, o seu livro em São Paulo. A obra tem introdução de Antonio Candido. Deixando-se de lado as muitas descrições da parentela, O Pai funciona como um suspense, na busca da menina pela verdade, por fatos que a ajudassem a entender certas atitudes do pai, mas acompanhado de profunda emoção, pois sabemos o que ela iria encontrar e, pior, o que enfrentaria ao saber-se filha de Dilermando Assis.


