Ele estava mais do que certo em se defender do homenzinho atarracado que, enfurecido, disparava aos berros de: ‘‘Vim para matar ou morrer’’. O atacante já havia mesmo atingido o seu irmão na nuca. O que era natural, a legítima defesa do atacado, Dilermando de Assis, foi considerado pela posteridade, burra, como um crime hediondo, já que o invasor agira em legítima defesa de sua honra. Afinal, como perdoar a quem matou Euclides da Cunha? Era demais para o brio oficial da Pátria e Assis foi execrado pela nação até a sua morte, em 1951.
Para recuperar a memória do ‘‘assassino do símbolo pátrio’’, sua filha Dirce de Assis Cavalcanti resolveu escrever ‘‘O Pai’’, uma tocante reconstituição de sua infância, marcada pelo silêncio de sua família (Dilermando casou-se com outra mulher após enviuvar de Anna) sobre o crime - ou dos crimes, porque o filho de Euclides também tentaria matar Dilermando e foi abatido: de ambos os crimes ele foi absolvido - e a descoberta, na exposição à humilhação por colegas de escola e professores truculentos, do passado do pai, que, aos 17 anos, ousara amar Anna (que sempre se defendia, dizendo: ‘‘Eu não errei, eu amei’’), mulher do autor de ‘‘Os Sertões’’.
Dirce lançou no último dia 5, o seu livro em São Paulo. A obra tem introdução de Antonio Candido. Deixando-se de lado as muitas descrições da parentela, ‘‘O Pai’’ funciona como um suspense, na busca da menina pela verdade, por fatos que a ajudassem a entender certas atitudes do pai, mas acompanhado de profunda emoção, pois sabemos o que ela iria encontrar e, pior, o que enfrentaria ao saber-se filha de Dilermando Assis.

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