'Memórias Póstumas' é bem recebido em Berlim
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2001
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Um dos momentos mais gratificantes para o diretor André Klotzel, após a exibição de Memórias Póstumas no 51º Festival Internacional de Cinema de Berlim, foi quando o tradutor alemão de Machado de Assis chegou para ele, emocionado, e agradeceu pelo belo filme. Ehrardt Gummz disse que havia iniciado sua carreira justamente traduzindo Memórias Póstumas de Brás Cubas e agora, quando se está aposentando, reencontrava na tela as melhores qualidades do escritor. Era como se um ciclo se fechasse para ele. Outro ciclo se abria para o diretor. Foi a estréia mundial de Memórias Póstumas. É um belo filme.
Klotzel acertou a mão. Digamos que ele havia errado com Capitalismo Selvagem, seu filme anterior, feito há um monte de tempo. Com Memórias Póstumas, a partir da ironia do texto de Machado, ele consegue dar vazão ao próprio humor. A ajuda de José Roberto Torero foi fundamental.
Ele escreveu os diálogos, sendo o roteiro do próprio Klotzel. Mas de nada adiantariam as falas se Klotzel não tivesse acertado o tom. Isso ele fez, e como!
O festival está sendo um bom palco para a afirmação internacional do cinema brasileiro. Nenhum filme concorre ao Urso de Ouro e é o caso de perguntar-se por quê. Três filmes integram a programação do Panorama, a importante seção que apresenta, fora de concurso, as novas tendências do cinema mundial. O curta Palíndromo, de André Barcinski, e os longas Latitude Zero, de Toni Venturi, e agora Memórias Póstumas foram todos bem recebidos.
No fim da sessão de Memórias Póstumas não houve gritos de muito bom, muito profundo, maravilhoso, como na de Latitude Zero. Mas o filme agradou, sem dúvida. Klotzel entendeu Machado. À reportagem, ele contou que o projeto começou a tomar forma há uns dez anos, quando ele resolveu reler os clássicos que o haviam marcado na juventude. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi uma (re)descoberta para ele. À platéia de Berlim, Klotzel disse que Machado foi o maior escritor brasileiro do século 19. Se tivesse escrito numa língua menos periférica do que o português seria, talvez (ou com certeza) um dos maiores do mundo.
O diretor foi fiel ao espírito do livro. O filme começa pelo fim da história - pela morte do protagonista, Brás Cubas, que assume, a partir daí, a função de narrador da própria história. Klotzel explicou de que forma sente a atualidade de Machado. Ele escreveu no contexto de uma sociedade escravista, cuja classe dominante copiava os modelos europeus de vestir, de falar, de comportar-se; Machado foi extremamante crítico disso. Klotzel acha que, cem anos depois, as coisas não mudaram tanto.
O Brasil dos ricos sonha com a Europa e hoje, mais do que qualquer outra coisa, com os EUA. E pouco lhe importa a situação dos pobres. Como diria Quincas Borba, ao vencedor, as batatas.
Brás Cubas, interpretado na maturidade (e como fantasma) por Reginaldo Faria e, quando jovem, por Petrônio Gontijo, é um homem medíocre. No final, faz, ironicamente, o balanço da própria vida. Não foi ministro, não criou o emplastro que era seu projeto de vida, mas também não precisou batalhar pelo dinheiro e também não deixou para ninguém o legado de sua miséria (moral e humana). Klotzel, além de diretor e roteirista, foi também produtor. Fez um filme impecável, visualmente.
Memórias Póstumas não deixa a impressão constrangedora que se tem, vendo alguns filmes brasileiros, que faltou dinheiro para a reconstituição de época. Foi uma produção cara, para os padrões do País, mas não exageradamente cara (R$ 7 milhões). O dinheiro está todo na tela, em cores, figurinos, arranjos cenográficos.
Até o que seria o maior desafio o diretor conseguiu resolver com economia e brilho. O delírio de morte de Brás Cubas não é muito bem escrito no livro. É um delírio de imaginação que Klotzel resolveu reduzir a dois momentos apenas - aquele em que Cubas cavalga o hipopótamo e o encontro com a mãe Natureza. Ele explicou sua opção - Se quisesse ser fiel ao delírio machadiano precisaria de uma superprodução recheada de efeitos especiais, à Spielberg ou à George Lucas. Além de o cinema brasileiro não ter recursos para isso, não era o que lhe interessava.
Klotzel enfatizou diversas vezes que nenhum filme adaptado de um livro pode ser considerado a versão definitiva desse livro. É sempre uma releitura, uma visão pessoal sobre um material já existente. Outra pessoa poderia fazer a sua leitura, o seu filme. Na verdade, no caso de Memórias Póstumas, já fez. Mas a abordagem de Julio Bressane do clássico machadiano é tão diferente que os dois filmes não têm em comum nem o título. O de Bressane é Brás Cubas, o de Klotzel, Memórias Póstumas. Duas abordagens que confirmam a diversidade do cinema brasileiro.
No livro, o autor das memórias dirige-se diretamente ao leitor. No filme, Klotzel faz com que Reginaldo Faria se dirija diretamente para o espectador, lembrando, a todo momento, que o que estamos assistindo é um filme. A cena do delírio - é preciso voltar a ela -, ganha uma dimensão circense. E representa a homenagem de Klotzel a um dos grandes pioneiros do cinema, o francês Georges MéliSs, o mágico que primeiro percebeu as possibilidades ilusionistas do invento dos irmãos LumiSre. É uma bela homenagem e num belo filme.


