Memórias Mal-Passadas (Wilson Bueno)
IlustraçãoOlho lá atrás: cabelos, andrajos, o batom colorido de Paulinho Pinel é um escândalo, a lua demora a sumir no céu do Leblon. Estou andando uma rua, uma rua comprida que vai dar no mar. O ano - que nos arrasta em sua turbulência - é o mais longo dos anos, e o mais longo dos anos é o ano de 1971. Ainda que a manhã insinue cor e movimento, ainda que a manhã ponha a praia azul, ao toque macio dos ventos, o que há é a noite pessoal interminada, o horror Médici a nos minar o precário coração.
Estamos no Brasil. Olhamos com grandeza e paciência e longamente examinamos a possibilidade aturdida - estamos no Brasil. E um ônibus nos levará, a mim e a você, um ônibus nos levará ao mais incomum dos bares brasileiros - ao Bar das Sete Portas, na rua Mem de Sá, esquina com Resende, no centro da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, ao bar que não fecha nunca e nem nunca fechou em mais de meio século.
Terá fechado, agora que não precisamos mais de bares abertos assim de um modo constante e quase escracho - dia e noite, noite e dia?
Quatro portas voltadas para a Mem de Sá e o seu asfalto já abrasado pelo sol e as outras três dando para a Travessa do Resende onde os paralelepípedos coloniais, gastos e muito lisos, como que refletem em negro os nossos vinte anos, o sorriso de Estrelinha, a silhueta de Magra Jane e os compridos caracóis dos cabelos de Marquinho Rebuceteio que descem ao ombro feito os de Sissi, a Imperatriz.
É um bar muito especial, este, o Bar das Sete Portas - ali os postos-de-lado são felizes. Chegam de todos os cantos da cidade, os vagabundos e os meliantes, os sinuqueiros e os travestis, os michês e as prostitutas e nós mais não somos que a mancha colorida que o bar abriga de todo o mal- hippies, molambos, fumados e cativos de nossos issos & aquilos, pulseirinha furta-cor, anelzinho de arame, do lado esquerdo do peito, o coração numeroso, o nosso coração cantor. Para onde ir? Que caminho tomar se a noite rigorosamente ainda não terminou, embora as nove horas da manhã no centro da cidade peçam a nós que nos apressemos? Rolam vagarosas pelas ruas umas esquizas Veraneios. Vagorosas. Vagarosas.
Em torno de uma cerveja as horas demoram. Não é bem o álcool o que nos atrai ao Bar das Sete Portas; mais é estar nele, aos ventos que o atravessam. Somos tão poucos e olhamos o asfalto da Mem de Sá como quem observa a escorreita superfície de um rio. Bebemos a goles medidos, o dinheiro curto, a impaciência longa e esta exasperação que faz Magra Jane estralar, a toda hora, os dedos da mão.
Ninguém sabe. Ninguém viu. Os jornais silenciados nada dizem. Caladas as rádios e as televisões. Mas perpassa por entre as gentes, feito um halo pesaroso, a morte de Evaldo e o suicídio de Nicanor, e a queda de Anecy, baianamente pronunciada Anécy, no poço do elevador, justo a mais simples, a mais morena e que tinha os olhos constantemente molhados, de puro expectar os olhos de Anécy eram dois lagos profundos.
Quem matou Evaldo? Quem matou Nicanor? Quem matou Anécy?
Inútil olhar a quase fluorescência do copo de conhaque, inútil beber da espuma da dourada cerveja posto que não nos responderão jamais à pergunta que aos cochichos, por entre mesas e banheiros, cadeiras e maços de cigarros, por entre garçons e bandejas, assassinos e ladrões, insistentes fazemos, sem resposta alguma nem atenções.
De que valem Evaldo, Nicanor, Anécy? Bichos que a cidade puiu. Bichos que a cidade usou e depois de usados jogou fora. Anécy, estamos gritando por você. Evaldo, estamos sozinhos e escuros e precisamos nem que seja de sua risada rouca. Ah, Nicanor, te desejamos, assim mesmo, com vossas calças de tergal e o colarinho branco de vossa camisa, cantando ao violão os hits de Dalva de Oliveira. Tão cafona, o Nicanor, desconhecendo, ou negando, João Gilberto. Cantor, para ele, era o Carlos Galhardo.
Havia um bar, sete portas, o cadavérico Ilya que, diziam, era alcaguete da polícia; havia a nossa cerveja, no máximo três, feito um tótem no centro da mesa enquanto pastávamos os pastos lilases de nossas trips lisérgicas, umas com Deus, outras com o Diabo.
Ouves? De longe, a gaitinha de boca, esta canção de Wally, falando dos porões dos navios onde, algum tempo depois, viajaríamos, imaginando uma plantação de peyote, uma em cada escotilha. Percebes? É quase uma cítara a voz de Gal Costa levada pela brisa da tarde junto com um vago assovio.
Tabernas e caves, pubs e bistrôs, do outro lado da linha.





