Memórias em cores e resina
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de outubro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
As memórias de Lígia Borba, transformadas em esculturas de cores alegres e douradas, estarão expostas a partir da noite de hoje, às 20 horas, no Espaço de Arte Ybakatu. Topografia - nome que recebeu da autora - reúne seis peças inéditas, feitas em resina e pigmentos. São coisas de minhas emoções e pensamentos mais remotos, diz.
Esses assomos de lugares e paisagens são a matéria-prima do trabalho, em sua forma subjetiva. Objetivamente ali estão objetos que a artista prefere sejam desvendados livremente por quem os observa. As peças não fecham numa explicação. O trabalho é meio concreto, meio simbólico e com representação.
Se na última exposição havia pistas de sua infância católica, nesta o que vale são as andanças pelos caminhos de pedras e águas de Brusque e Itapema. Os acidentes geográficos, as montanhas, elevados e depressões espalham-se pela diversidade do vermelho, azul, verde, dourado.
Há mais de 20 anos trabalhando com a resina, ainda não se esgotaram as possibilidades que oferece. Tanto no sentido construtivo como expressivo ela traz surpresas, afirma Lígia. A cada trabalho você descobre novas possibilidades que indicam outras soluções conceituais e técnicas. Desta vez, por exemplo, a novidade mais interessante foi a da aproximação da pintura.
As tintas foram colocadas diretamente na resina que, trabalhadas em camadas, têm as cores definidas. Noutros casos, onde se utilizou o pó de ouro, o próprio material ainda gelatinoso, contribuiu para evidenciar desenhos dos terrenos, como se fossem marcas do solo. Esse desvendar, porém, acontece aos poucos, na observação e na imaginação de cada um.
A autora tirou de um poema o nome de uma peça: E por terras viciosas de África e de Ásia andaram desvendando. O cume vermelho de uma possível montanha tanto pode indicar o coração latejante da terra, como a dor da devastação, apesar da riqueza ao redor, generosa, sempre constante e profunda.
Ilhas catarinenses misturam-se às dos poemas épicos, na memória afetiva da artista. A gente está sempre reconstruindo, comenta Lígia Borba sobre os impactos que a beleza causa na infância, e que acabam voltando no correr da vida, para serem transmutados em arte. Daí que sua obra é a afirmação do meu universo interior.


