As memórias de Lígia Borba, transformadas em esculturas de cores alegres e douradas, estarão expostas a partir da noite de hoje, às 20 horas, no Espaço de Arte Ybakatu. ‘‘Topografia’’ - nome que recebeu da autora - reúne seis peças inéditas, feitas em resina e pigmentos. ‘‘São coisas de minhas emoções e pensamentos mais remotos’’, diz.
Esses assomos de lugares e paisagens são a matéria-prima do trabalho, em sua forma subjetiva. Objetivamente ali estão objetos que a artista prefere sejam desvendados livremente por quem os observa. ‘‘As peças não fecham numa explicação. O trabalho é meio concreto, meio simbólico e com representação.’’
Se na última exposição havia pistas de sua infância católica, nesta o que vale são as andanças pelos caminhos de pedras e águas de Brusque e Itapema. Os acidentes geográficos, as montanhas, elevados e depressões espalham-se pela diversidade do vermelho, azul, verde, dourado.
Há mais de 20 anos trabalhando com a resina, ainda não se esgotaram as possibilidades que oferece. ‘‘Tanto no sentido construtivo como expressivo ela traz surpresas’’, afirma Lígia. ‘‘A cada trabalho você descobre novas possibilidades que indicam outras soluções conceituais e técnicas’’. Desta vez, por exemplo, a novidade mais interessante foi a da aproximação da pintura.
As tintas foram colocadas diretamente na resina que, trabalhadas em camadas, têm as cores definidas. Noutros casos, onde se utilizou o pó de ouro, o próprio material ainda gelatinoso, contribuiu para evidenciar desenhos dos terrenos, como se fossem marcas do solo. Esse desvendar, porém, acontece aos poucos, na observação e na imaginação de cada um.
A autora tirou de um poema o nome de uma peça: ‘‘E por terras viciosas de África e de Ásia andaram desvendando’’. O cume vermelho de uma possível montanha tanto pode indicar o coração latejante da terra, como a dor da devastação, apesar da riqueza ao redor, generosa, sempre constante e profunda.
Ilhas catarinenses misturam-se às dos poemas épicos, na memória afetiva da artista. ‘‘A gente está sempre reconstruindo’’, comenta Lígia Borba sobre os impactos que a beleza causa na infância, e que acabam voltando no correr da vida, para serem transmutados em arte. Daí que sua obra ‘‘é a afirmação do meu universo interior’’.

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