MEMÓRIAS E HISTÓRIAS DE UM MALDITO
Cinemateca de Curitiba promove Semana Zé do Caixão, com exibição de filmes e lançamento de livro
Elisa Marilia Carneiro

Albari Rosa
Zé do Caixão: ‘‘A censura me mutilou’’Posando com unhas metálicas enormes, anel de Boris Karloff (ator de Frankstein e Lobisomen) e ladeado pelos escritores André Barcinski e Ivan Finotti, José Mojica Marins, o Zé do Caixão, participou da entrevista de lançamento de sua biografia ‘‘Maldito’’, na Cinemateca de Curitiba. A noite de autógrafos acontece hoje, às 19h30. Em seguida será exibido ‘‘À Meia-Noite Levarei sua Alma’’.
Num ambiente de penumbra, na platéia da Cinemateca, os autores e o próprio Zé do Caixão contaram um pouco do que trata o livro: as aventuras de um cineasta autoditada, considerado um gênio do cinema trash e que começou a trabalhar com cinema aos 16 anos de idade. Desde cedo começou a deixar crescer as unhas, que chegaram a medir mais de 27 centímetros, mas teve de cortá-las porque estavam atrofiando dos dedos.
Segundo Ivan Finotti, a idéia do livro teve como ponto de partida o fato de Zé do Caixão estar sendo conhecido no Brasil pelas razões erradas - associado ao cinema lixo. ‘‘A gente queria mostrar nesse livro o cineasta, que participou de mais de 100 filmes, e dirigiu 31 longas-metragens. Apenas seis de terror, mas o cineasta genial não é conhecido, só o personagem de unhas enormes e capa preta.’’
O primeiro filme de Mojica chamava-se ‘‘Sentença de Deus’’, o segundo foi um faroeste, o terceiro um musical infantil e apenas o quarto, de terror. O auge dos filmes do Zé do Caixão foram na década de 60, quando Mojica virou um artista multimídia. Em 1967 começou com um programa de televisão às sextas-feiras à noite, e que foi recorde de audiência. Era um teleteatro com estórias de terror. Depois, foi para a Tupy e teve que parar com o programa por ter sido considerado, pelo juizado de menores, ‘‘impróprio’’.
Além dos filmes, Mojica editou, em 1968, uma revista em quadrinhos que concorria com o Batman, chamada ‘‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’’. Em 1969, lançou um compacto de Carnaval, deu nome a uma linha de cosméticos, um produto vitalizante para unhas, desodorante, pinga, todos com a marca ‘‘Mistério’’. Montou também um consórcio de funerais, onde as pessoas pagavam seu próprio enterro de luxo, com mensalidades.
Trabalhando no período da ditadura, Mojica diz que seus filmes foram cortados, censurados e até modificados. ‘‘Em dois filmes me obrigaram a trocar as falas, e a mudar o final’’, lembra com tristeza. ‘‘A censura me mutilou. Para os censores, tudo o que eu fazia tinha um lado político ou era considerado atentado ao pudor. Eles não entendiam nada.’’
Nos certificados da censura, do Arquivo Nacional, os escritores, na fase de pesquisa, descobriram que Mojica foi o cineasta que teve mais filmes cortados pela ditadura militar.
Na década de 60 fez quatro filmes: ‘‘‘À Meia-Noite Levarei sua Alma’’, ‘‘Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver’’, ‘‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’’ e ‘‘O Despertar da Besta’’. Em 1970, dois estavam interditados, não foram mais exibidos o ‘‘Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver’’ e ‘‘Despertar da Besta’’. Os outros dois foram cortados em mais de 20 minutos, ‘‘dilacerados’’.
Num, segundo Barcinski, o personagem terminava dizendo ‘‘Eu não acredito em Deus’’ e os censores mandaram regravar sem o ‘‘não’’, e no noutro mandaram gravar uma cena explodindo o lugar onde Zé do Caixão vivia. Mandar mudar os filmes não aconteceu com mais ninguém.
‘‘E eu não entendia nada de política. Nem queria saber de problemas políticos ou religiosos. Queria agradar a um público, passar uma mensagem. Através do misticismo, o personagem protegia a inocência, as crianças, a pureza. Se revoltava quando as pessoas cresciam e se envolviam no sistema’’, analisa Mojica.
Isto tudo ficou 35 anos guardados no Arquivo Nacional. Para escrever o livro, os dois autores entrevistaram 110 pessoas, entre parentes, amigos, conhecidos e pessoas que trabalharam com Mojica. ‘‘Cada um contou uma história e tudo isso está detalhado no livro’’. Desde a vida de menino morando nos fundos de um cinema na Vila Anastácia, em São Paulo, até seus sucessos na Europa e Estados Unidos.
Para Mojica, o sucesso de seus filmes se devem ao inusitado, numa época de produções ‘‘individualistas ou comerciais americanos. Eu contava histórias brasileiras, do nosso folclore’’.
A voz de Mojica se eleva quando ele fala do Brasil que é ‘‘levado’’ para fora do País. Esta é a única vez que ele fica exaltado. ‘‘Só levam bundas para mostrar lá fora. Isso é revoltante. Felizmente está havendo uma retomada do bom cinema nacional. Temos coisas riquíssimas para mostrar e eles (europeus e norte-americanos) estão sem histórias. Chegou a hora de mostrar o Brasil, dos homens com criatividade.’’
Para este ano e o próximo, Mojica pretende rodar ‘‘O Olho do Portal do Inferno’’ e ‘‘Adolescência em Transe’’, que já está com o roteiro pronto. No primeiro, Mojica inicia com uma cirurgia que ele teve que fazer na vista e filmou toda a operação. ‘‘Isso é muito melhor do que qualquer efeito especial. Procuro um co-produtor. Se alguém se habilitar, me procure em São Paulo pelo telefone (011) 616-30930.’’
A Cinemateca de Curitiba reservou uma semana inteira ao mestre do cinema trash no Brasil. Amanhã, exibe ‘‘Esta noite Encarnarei no teu Cadáver’’. No domingo, estará em cartaz ‘‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’’. Terça-feira, ‘‘O Despertar da Besta’’ e, na quarta-feira, o encerramento da retrospectiva será feito com mais uma exibição de ‘‘À Meia-Noite Levarei sua Alma’’. Todas as sessões acontecem às 20h30.
Durante a Semana Zé do Caixão, o livro ‘‘Maldito’’ estará à venda na Cinemateca e a sua compra dará direito ao ingresso das sessões da mostra.

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