Um documentário inédito sobre a relação da música popular brasileira com a ditadura militar estreia hoje na TV por assinatura. Transformado numa série em três episódios, o filme ''Canções do Exílio - A Labareda que lambeu Tudo'' vai ar hoje, amanhã e quinta-feira, às 22h, pelo Canal Brasil.
Idealizado e dirigido pelo jornalista Geneton Moraes Neto, a atração traz depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner e Jards Macalé sobre o período (1969 a 1972) em que foram censurados, perseguidos e banidos do País sob a alegação de que atuavam subversivamente contra o regime.
As memórias da prisão, o isolamento no exterior e a expectativa do retorno são passadas a limpo ao longo de 150 minutos de conversa. O documentário, rodado no ano passado com produção e edição de Jorge Mansur, traz participações do ator Paulo Cesar Peréio na locução e da atriz Lorena da Silva que lembra trechos de crônicas de Caetano para o jornal Pasquim.
Toda a saga é narrada cronologicamente, desde a prisão de Caetano e Gil por oficiais de exército em 1968, duas semanas depois da decretação do AI-5. Num primeiro momento, os dois foram confinados em celas de quartéis do Rio de Janeiro. Em seguida, ficaram em prisão domiciliar em Salvador. Só em julho de 69 partiram para um exílio forçado que se estenderia por dois anos e meio, até janeiro de 1972.
Caetano conta que os militares falavam em matar Geraldo Vandré em todos os quartéis onde esteve preso. ''Ouvi repetidas vezes que eles matariam o Geraldo Vandré se o encontrassem'', diz. Caetano lembra o interrogatório que sofreu na tentativa de influenciá-lo a compor uma música exaltando a Transamazônica. Segundo ele, os militares argumentavam que outros artistas já estariam contribuindo com o governo.
Gil, por sua vez, conta que foi obrigado a fazer um show para a tropa no quartel e que teve o cabelo cortado à força. Ele lembra o apoio que recebeu do escritor Antonio Callado no cárcere ao vê-lo de cabeça raspada. Gil também recorda que, logo após voltar do exílio, a censura proibiu ''Cálice'', composta em parceria com Chico Buarque e que ele nunca gravou.
''Eu tive mesmo muita dificuldade de lidar com a música 'Cálice'. Na verdade, eu tenho até hoje, porque ela é sobre a dor, o tormento, a repressão, a censura'', afirma. Já Jorge Mautner, que foi dos Estados Unidos para a Inglaterra ao encontro dos amigos, mostra uma visão mais filosófica sobre as experiências da época.
Jards Macalé, por sua vez, viajou a convite de Caetano para ajudá-lo no que seria o LP ''Transa''. Vêm dele as únicas referências à relação do grupo com as drogas, já que, todos, menos Caetano, recorreram a elas nos tempos de exílio. Foi sob a ação de LSD que Macalé, em visita ao museu de Madame Tussaud, apaixonou-se por uma Branca de Neve de cera.
''Ainda hoje sinto saudades daquela Branca de Neve'', diz. É dele, aliás, o subtítulo do documentário ''Canções do exílio''. Ele revela que ao retornar ao Rio, vindo do inverno britânico, sentiu um forte calor entrar pela porta do avião adentro, como ''uma labareda que lambeu tudo''. No sábado (12), o Canal Brasil exibe os três episódios em sequência, a partir de 17 horas.
Serviço:
Documentário ''Canções do Exílio - A Labareda que Lambeu Tudo''
Quando - hoje, amanhã e quinta, às 22h
Onde - Canal Brasil
Reprise no sábado, dia 12/02, a partir das 17h.

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