No exato momento em que o menino joga bola no quintal, o pai chega em casa do trabalho. Traz embaixo do braço o novo disco de Luiz Gonzaga. Entra em casa e coloca o disco na vitrola.

Pela janela, o menino começa ouvir “Assum Preto”, uma música de cortar o coração. O garoto tenta se controlar, mas não consegue: “Aos poucos fui caindo no choro, que foi aumentando até se tornar compulsivo, como costuma acontecer com as crianças quando tocadas por uma emoção poderosa. Meu pai então veio me ver, e perguntou se eu estava chorando por causa da música ou porque o Santos havia perdido para o Taubaté. O que é que eu ia dizer? Falar que estava chorando por causa de uma música?”

O menino em questão é Arrigo Barnabé, nascido em Londrina em 1951. O relato está presente em “No Fim da Infância”, livro de memórias do músico e compositor que será lançado nesta quinta(27), em Londrina. O evento acontece na Vila Cultural Grafatório com a presença do autor para um bate-papo e sessão de autógrafos. O músico também apresenta o show “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” no Teatro Outro Verde na sexta-feira (28), dentro do Projeto Circulasons.

Arrigo Barnabé: livro traz nove textos sobre a infância do músico, passada em Londrina, e a juventude em São Paulo
Arrigo Barnabé: livro traz nove textos sobre a infância do músico, passada em Londrina, e a juventude em São Paulo | Foto: Reprodução

A obra traz nove textos memorialísticos em que Arrigo Barnabé narra sua infância em Londrina e sua juventude em São Paulo. Conta sobre sua grande frustração, ainda menino, em não poder tocar acordeão, instrumento que amava, e precisar se contentar com o piano. Narra também a aventura de conseguir fazer parte da fanfarra do Colégio Marista de Londrina tocando caixa de guerra. Uma fanfarra que chegou a ter 120 componentes.

Em 1963, Arrigo e outros dezenas de alunos embarcaram rumo ao Rio de Janeiro para tocar no gramado do estádio do Maracanã na abertura da final do Mundial de Clubes, jogo entre o Santos e o Milan da Itália. Algo inacreditável para um garoto.

Sobre a juventude, narra o show de Alice Cooper ocorrido em São Paulo em 1974, no espaço do Anhembi. O primeiro show de rock internacional ocorrido no Brasil em plena ditadura militar. Mais do que um evento tumultuado, Arrigo entra em contado com um conceito cênico que, junto com a música do compositor húngaro Béla Bartók, daria origem ao clássico “Clara Crocodilo”.

O Fim da Infância” oferece a gênese completa de “Clara Crocodilo”, música criada por Arrigo e Mário Lúcio Cortes em Londrina durante as férias escolares de dezembro de 1971 e janeiro de 1972. Arrigo fazia o curso de arquitetura na FAU, Mário fazia o curso de engenharia no ITA. Criada em módulos, a composição foi concluída nas férias de julho de 1972. A letra só apareceria em 1978, junto com outras músicas que integrariam o conceito do disco “Clara Crocodilo” lançado em 1980.

Arrigo também narra o dia em que conheceu pessoalmente Tom Jobim no Rio de Janeiro em 1982. Um belo dia descobre que os amigos que integravam o grupo vocal Céu da Boca tinham um encontro marcado na casa de Tom Jobim. Arrigo vai junto levando debaixo do braço o LP “Clara Crocodilo” e o compacto simples com Tetê Espíndola cantando duas de suas composições: “Canção dos Vagalumes”, de um lado, “Londrina” de outro. Ao ouvir a faixa “Londrina”, Tom Jobim pede para ouvir novamente. E depois pede para ficar com o disco.

Livro lançado pela Grafatório conta com edição artesanal e papéis diferenciados
Livro lançado pela Grafatório conta com edição artesanal e papéis diferenciados | Foto: Reprodução

Lançado pela Grafatório Edições com organização de Felipe Melhado, “No Fim da Infância” segue o mesmo caminho traçado pelo coletivo de artes gráficas em publicações anteriores: o tratamento do livro como objeto estético. Impresso em tipos móveis (tipografia), integrando práticas artesanais e fazendo uso de papéis diferenciados, a obra faz parte de um projeto editorial diferenciado que conta com o apoio do Promic.

A maioria dos textos que integram a obra foram publicados originalmente pela revista Piauí ao longo de 2012. Outra parte foi publicada originalmente pela revista Calibán em 2016. Reunidos num único volume, as memórias da infância e da juventude de Arrigo Barnabé oferecem elementos mais completos para o entendimento da aurora de música contemporânea em Londrina que se espalharia pelo país. Mais do que isso, do processo de desenvolvimento de um linguagem universal.

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. | Foto: Reprodução

Serviço:

No Fim da Infância”

Autor – Arrigo Barnabé

Editora – Grafatório

Organização e Posfácio – Felipe Melhado

Imagens – Maykon Nery e Pablo Blanco

Tipografia – Silvio Valduga

Páginas – 98

Quanto – R$ 65,00

Lançamento:

Sessão de autógrafos e bate-papo com Arrigo Barnabé

27 de junho (quinta-feira) – 19h30

Vila Cultural Grafatório (Av. Paul Harris, 1575)

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