Memórias de um inventor de deusas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
''Vida Modelo'' é a incrível história de John Casablancas, o ''inventor das supermodelos'', um homem que nunca se levantou da cama para viver um dia trivial.
Catalão que por acaso nasceu em Nova York, Casablancas conta como ficou famoso ao lançar algumas das mais belas deusas da moda através da agência Elite - Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Naomi Campbell e Gisele Bundchen.
Entre memórias divertidas de seus tempos de garoto na Riviera Francesa até suas aventuras de empreendedor, como vendedor de refrigerante na Bahia dos anos 60 e representante de vibradores, Casablancas não se esquivou de nenhum assunto nas conversas que manteve com sua ghost-writer, a jornalista Ana Maria Bahiana, para compor o livro. Nem mesmo sua briga com Gisele Bundchen.
Você foi o trabalho de escrever com uma ghost-writer?
Gravamos centenas de horas, o texto original deve ter tido umas mil páginas. O livro representa 25% das anedotas que eu contei para ela. Fomos cortando, cortando, cortando. Adorei o estilo dela, que pegou meu estilo de fala, de pensar, e colocou numa linguagem clara, fácil de ler.
Condensada, a história dá a impressão de que nenhum dia na sua vida foi comum. Muita coisa, para 67 anos...
Eu acho que provoquei muitas dessas coisas que aconteceram comigo. Se você é repórter de guerra, a probabilidade de levar uma bala é maior do que se você for repórter de moda. Pois bem, se eu fosse repórter de moda, levaria bala no meio de um desfile.
Nos anos 90, os concursos da Elite lançaram não só moças bonitas, mas modelos de personalidade. Hoje, entretanto, não vemos feito semelhante. O que o faz pensar que, no contexto atual, seja possível lançar um concurso como esses com o impacto de antes?
Quando eu cheguei à moda, curiosamente, o mundo das modelos parecia o que é hoje, todas branquelas, magras, sem bumbum... Não tinha morenas, eu impus morenas. Não tinha mulheres com formas no corpo, como a Cindy Crawford, que eu impus também. Quebrei todos os tabus.
Mas ser modelo é algo que se aprende? A gente vê cada coisa nesses reality shows...
Eles querem cabides. Acho que as pessoas gostam de pessoas reais, de uma pessoa que, de certa maneira, é um sonho, mas é um sonho real, não um sonho inventado - cabelos exagerados, maquiagem exagerada, essas coisas meio doentes. As coisas que vendem na moda são saudáveis, naturais.
Quem são as mulheres bonitas de hoje?
Aqui no Brasil, acho a Grazzi Massafera realmente espetacular. Como modelo, a Ana Beatriz Barros é espetacular, a Adriana Lima, a Alessandra Ambrósio. Dentro das que são muito fashion, gosto muito da Carol Trentini e a Ana Cláudia Michels.
E o que explica todo o frisson em torno das mulheres melancia, jaca...
Vocês têm uma tradição de ser um pouco obsessivos com o bumbum. Essas mulheres são um exagero dessa tendência. Mas eu, pessoalmente, acho a coisa menos sexy que existe. Eu aceito tudo, acho que todos têm direito aos seus gostos pessoais, mas para mim, não me estimula em nada. Deixo para os outros.
Você detalha no livro a sua versão sobre o rompimento de contrato entre a Elite e Gisele Bundchen, alegando que foi traído por ela. Não teve receio de parecer dor-de-cotovelo?
Não parece dor-de-cotovelo, é uma dor-de-cotovelo assumida. Por causa, digamos, de um capricho egoísta, muito dinheiro, muito prestígio, muito prazer. Não somente naquele momento, mas durante anos, quando o sucesso de Gisele, que eu construí com meu trabalho, era lembrado constantemente, sem que ela desse o devido crédito disso à Elite. Eu sei que falando da Gisele vai me trazer muita inimizade. Aqui, ela não é uma pessoa, é uma deusa. Mas por outro lado, vou poder contar a minha história. As pessoas vão saber que eu a achei, eu que a levei a ser top. Isso ela não pode me roubar, mesmo se as pessoas acharem agora que é só dor-de-cotovelo.


